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A Página dos Cyborgs

O Discurso dos Cyborgs.

A questão do cyborg, dentro dos estudos da cultura ("cultural studies"), foi introduzida com o "Manifesto for Cyborgs" de Donna Haraway(1). Tenta-se chamar a atenção para um novo campo do saber chamada de cyborgologia(2). O objetivo de Haraway aparece logo na primeira frase: "this essay is an effort to build political myth faithful of feminism, socialism, and materialism (...) At the center of my ironic faith, my blasphemy, is the image of the cyborg"(3). A medicina moderna, através dos diversos acoplamentos entre o orgânico e o inorgânico, e o uso militar de tecnologias de ponta (principalmente no que Haraway identifica como "C3I-comando-controle- comunicação-informação") mostram que nesse fim de século "we are all chimeras, theorized and fabricated hybrids of machine and organism; in short we are all cyborgs"(4).

Donna Haraway, propõe ver os cyborgs como uma sexualidade híbrida. O cyborg seria um organismo, meio máquina meio biológico, que possui uma identidade parcial e contraditória, aceitando a indiferenciação. Ele poderia assim nos liberar das hierarquias sociais, do racismo e do sexismo que impera na civilização Ocidental. Levar a sério o imaginário do cyborg permite escapar do mito falocêntrico do "Pai" criador, e quebrar a visão unitária de gênero. Se o cyborg é um híbrido, ele não é auto-poiético, ele não pode replicar copias dele mesmo. Nesse momento o corpo se livra da metáfora materna, já que o cyborg "does not dream of community on the model of the organic family, this time without the Oedipian project. The cyborg would not recognize the Garden od Eden; it's not made of mud and cannot dream of returning to dust"(5). Embora, como insiste Haraway, o discurso do cyborg possa ser um instrumento de liberação feminista, ele é, em realidade, fruto de uma sociedade tecnocrática, paternalista e militar(6).

Segundo Haraway, o cyborg surge em meio a cultura contemporânea a partir de três abalos de fronteira: a fronteira entre os animais e os seres humanos; a fronteira entre o orgânico e o inorgânico; e a fronteira entre o físico e o não-físico. Num primeiro momento, trata-se da ruptura entre a natureza e a cultura no aspecto biológico e evolutivo da biosfera. O surgimento de novos animais de laboratório e o movimento de defesa dos animais, exemplifica Haraway, mostram a imbricação do humano e do animal. O cyborg, ao contrario da ideologia biológico-determinista, não se preocupa em tentar separar o homem das outras espécies vivas; ele busca o acoplamento mais radical.

A segunda ruptura é aquela entre os animais (dentre eles o homem) e as máquinas. Aqui o cyborg pode aparecer, fenomenologicamente falando, como um ser simbiótico dotado, ao mesmo tempo, de partes orgânicas e inorgânicas. Essa ruptura se radicaliza com as novas tecnologias, onde as fronteiras entre cultura e natureza entram em colapso(7). A terceira ruptura é diretamente ligada à segunda, e refere-se ao nível de imprecisão da separação entre o físico e o não-físico. Aqui estamos no centro da virtualização do mundo. A desmaterialização numérica do mundo, nos leva ao centro desse furacão dos sentidos que é a indiferenciação cada vez maior entre o "visível" e o "não visível", entre o físico e o não-físico. A miniaturização e a transformação do mundo em bits muda, de forma radical, a nossa experiência no mundo newtoniano. Em contraposição ao mundo analógico, o cyborg nasce da numerização do mundo.

O mito do cyborg surge para quebrar fronteiras, potencializar fusões e simbioses, e para abalar a hegemonia do discurso feminista (e de esquerda em geral) que consiste em pensar a vida social como estabelecida em dicotomias bem claras. Haraway pensa o mundo do cyborg como aquele em que as realidades social e corporal são vividas por uma sociedade que não tem medo de se juntar à matéria inorgânica, de perder permanentemente suas identidades, de experimentar a complexidade e a contradição. Todo o jogo político contemporâneo está no confronto entre essas duas perspectivas.

No mundo do cyborg, trata-se muito mais de afinidade do que de identidade. Maffesoli fala da passagem de uma lógica da identidade (típica da modernidade) à uma lógica da identificação que estaria dando exemplos na vida quotidiana contemporânea. Essa lógica de identificação opera muito mais por afinidade que por identidade(8). As questões de classe, raça e gênero nos foram impostas pelas terríveis condições históricas do colonialismo do patriarcalismo e do capitalismo. A "identidade cyborg" se constitui a partir de uma afinidade, longe da lógica da apropriação de uma (e única) identidade. Seria ela a única a poder criar uma política que abrace o parcial, o contraditório e as construções abertas, pessoais e coletivas.

Haraway traça uma crítica contra o marxismo, o socialismo feminista e o feminismo radical, mostrando como eles fracassaram com estratégia de identidade (marxismo - estrutura de classe e alienação pelo trabalho; feministas socialistas - trabalho como dominação masculina e capitalista; feminismo radical - desejo do outro, objetivação do sexo feminino, um marxismo sexualizado). Essas abordagens são reguladas por totalizações e não por fragmentação ou explicação parcial. Longe de estruturas globais explicativas, vemos emergir fragmentos parciais, rupturas de fronteiras. O cyborg é assim um "mito" sobre identidade e fronteiras.

O discurso do cyborg se enquadra na perspectiva pós-moderna que desloca o dualismo hierárquico de identidades naturalizadas(9). A civilização ocidental tem se caracterizado pela requisição do "outro" (negros, homossexuais, mulheres, natureza) num processo de dominação e controle. O dualismo estrutura essa civilização ocidental através da separação entre mente e corpo, realidade e aparência, macho e fêmea, natureza e cultura. No tempo de micro-máquinas, de redes digitais e de realidade virtual, todos nós nos transformamos em seres híbridos, cyborgs da civilização do virtual onde a conexão à todo tipo de artefato torna-se, dia após dia, mais numerosa. A cibercultura contemporânea subverte esses dualismo a ponto de não sabermos direito onde começa o homem e onde termina a máquina. Nos transformamos, a nível do corpo biológico, mas também a nível do "corpo" social, em sistemas bióticos híbridos, regidos pela comunicação e pela troca de informações(10). O mito do cyborg implica na não legitimação de discurso totalizadores e na refutação de uma metafísica anti-científica e anti-tecnológica, aproveitando para comunicar com os outros, expandir fronteiras e anular dicotomias preestabelecidas. Como exprime magistralmente Haraway, "I would rather be a cyborg than a goddess"(11). REFERENCIAS

1. Haraway, D., "A Manifest for Cyborgs: Science, technology and socialist feminism in the 1980s", in Socialist Review, 1985, 80:65 - 107.

2. Ver Gray, C.H. (ed). "The Cyborg Handbook", op.cit.

3. Haraway, D., "A Manifesto...", op.cit., p. 65.

4. Idem, p.66. Ver Chislenko, A., "Legacy Systems and Functional Cyborgization of Humans"., in http://lydia.bradley.edu/las/soc/syl/391/papers/contra_spaces.html, (21/11/96).

5. Haraway, D., op.cit., p.67.

6. O desenvolvimento das tecnologias cyborgs se deve em grande parte as pesquisas militares, em primeiro lugar, e nas pesquisas na área médica. As áreas mais propicias ao hoje são o entretenimento e o trabalho.

7. Ver a esse respeito Springer, C., "Sex, Memories, Angry Women"., in Dery, M., "Flame Wars. The Discourse of Cyberculture"., SAQ, 92:4, Fall 1993, Durham, Duke University Press, pp.713-734.

8. Ver Maffesoli, M., "O Fundo das Aparências", RJ, Vozes, 1996., principalmente o capítulo VII.

9. Ver Dery, Mark., "Cyborging the Body Politic", in Mondo 2000, n°6, p.101, 1992.

10. Hayles, Katherine., "The Life of Cyborgs: Writing the Posthuman", in Gray, C.H. et alii. "The Cyborg Handbook", op.cit., p. 322, citado por Landow, George P., "Cyborg: Some Definitions, Descriptions, and Exemplifications.", in http://www.stg.brown.edu/projects/hypertext/landow/cpace/ cyborg/definition.html, (08/12/43).

11. Haraway, D., op.cit., p. 101.

André Lemos, PhD.

Professor e Pesquisador da Facom/UFBA.

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