CIBER-REBELDES


Todas as tecnologias criam novos rebeldes. Os "luddites" ingleses, que no começo da revolução industrial do século XVIII quebraram as màquinas com medo de serem substituìdos por elas, foram os primeiros "tecno-rebeldes". Desde então muita coisa mudou. O cinema popularizou os "rebeldes sem causa" da geração "baby-boom". Hoje, novos rebeldes utilizam as tecnologias micro-eletrônicas. Se a revolução industrial viu a emergência dos luddites, a cibercultura vai ver a dos rebeldes do "fronte" cibernético: os "ciber-rebeldes". As figuras mais importantes são os "phreakers", os "hackers", os "crackers", os "cypherpunks", os "ravers" e os "zippies". São esses os novos "cowboys" da fronteira eletrônica.

Os Phreakers.

Os phreakers são conhecidos como os piratas do telefone. A palavra "phreak" é um neologismo entre "freak, phone, free". A ação dos phreakers começa nos anos 60, a partir da apropriação do sistema de telecomunicação mundial tendo como objetivo viajar gratuitamente pelas redes. Eles organizavam as famosas "party lines", festas em linha com vàrias pessoas de locais os mais diversos. Jon Engressia é considerado o pai dos phreakers. Cego de nascença, ele queira encontrar outros cegos pelas linhas mundiais de telefonia. Um outro phreaker, John Draper, descobriu por acaso numa caixa de cereais, um apito que produzia a freqüência de 2600 hz, tonalidade essa que permitia realizar chamadas internacionais gratuitas. A partir disso Draper ficou conhecido como Captain Crunch (o nome do cereal). A descoberta de Draper incita outros phreakers a produzirem equipamentos clandestinos (as "blue boxes") que reproduziam os 2600 ciclos e assim permitiam a viagem gratuita pelas redes de telefonia mundial. Hoje o "phreaking" é atualizado com a pirataria de telefones celulares, esses, pelo tipo de funcionamento, mais pròximos de um computador que de um telefone. A fronteira entre os phreakers e os hackers desaparece.

Os Hackers.

Se os telefones criaram os phreakers, os computadores vão criar os hackers. O personagem Edu da novela "Explode Coração" é um exemplo. Ele incarna bem o arquétipo do hacker: um jovem, singelo, tìmido e ingênuo que penetra sistemas de informação, sem mexer nos dados alheios. Isso nos dà a imagem do romantismo dos primeiros hackers. Os hackers formam a elite da informàtica. Num primeiro momento, eles pretendem liberar as informações e os computadores do poder militar, industrial e universitàrio e vão ser os verdadeiros responsàveis pelo nascimento da micro-informàtica, nos anos 70, na Califòrnia. A micro-informàtica foi, por si sò, uma espécie de rebelião contra o peso da primeira informàtica (grandes computadores ligados a balìstica militar). Os hackers atualizam, com as redes de computadores, a ação dos phreakers, a saber, viagens por novos territòrios simbòlicos, o ciberespaço. Para eles todas as informações devem ser livres, as redes devem ser livres e democràticas e os computadores acessìveis a todos e utilizados como uma ferramenta de sobrevivência na sociedade pòs-industrial. Os primeiros hackers visavam demonstrar a falibilidade das redes, daì vem a invasão à sistemas de computadores. A mensagem é simples: "se te dizem que tudo é seguro, que não hà possibilidades de falhas, desconfiem, pois é provavelmente um engodo". Os hackers alemães do Chaos Computer Club de Hamburgo por exemplo, penetraram o sistema da caixa econômica local, retiraram em poucas horas milhares de marcos e, no dia seguinte, foram à agência devolver e mostrar as falhas do sistema. Por isso os hackers tornaram-se conhecidos como os "Robin Wood" da cibercultura. O que importa aqui é vermos que, pela tecnologia, os hackers denunciam a pròpria racionalidade tecnològica e o poder constituìdo por grandes empresas e instituições governamentais. Entretanto nem tudo são boas intenções (mostra as falhas, democratizar a informação): surgem os crackers.

Os Crackers.

Os crackers são os verdadeiros "cyberpunks", ou punks da cibernética. Eles são a versão negra dos hackers. Aqui a atitude punk penetra no reino asséptico da tecnologia. Os crackers pirateiam programas, penetram sistemas com o intuito de quebrar tudo (dai o nome "cracker"), inserem poderosos e destrutivos vìrus de computador. A idéia é romper com a sociedade asséptica da informàtica e sabotar ao màximo os grandes sistemas de computadores. Nesse sentido os crackers são o pesadelo da modernidade tecnològica. O fenômeno é planetàrio. Em abril de 1994 um cracker brasileiro penetrou vàrios sistemas (provavelmente à partir da Unicamp) destruindo vàrios dados. Ele deixou a seguinte mensagem: "estou de volta para semear o terror na Internet. Vocês não sabem o que é segurança de um sistema". Com hackers et crackers as redes parecem vulneràveis. Pela proteção individual no ciberespaço, aparecem assim os punks da criptografia ou cypherpunks.

Os Cypherpunks.

Os cypherpunks (de cyberpunks e criptografia - "cypher") são tecno-anarquistas que lutam pela manutenção da privacidade no ciberespaço através da difusão de programas de criptografia de massa (proibidos, entretanto, em vàrios paìses). Eles buscam garantir a liberdade individual e a proteção da privacidade dentro das redes de computadores. Assim, esses ciber-rebeldes se organizam contra todas as tentativas governamentais ou empresariais de re-traçar nossas vidas a partir das pistas que deixamos quando utilizamos qualquer sistema eletrônico, como cartões de crédito, banco eletrônico ou redes de computadores. O programa PGP ("pretty good privacy") criado por P. Zimmermann, os "remailers" e outros sistemas anônimos, são as armas fundamentais dos cypherpunks. Toda a mìstica da cabala e do pensamento hermético encontra ressonância com a criptografia de dados eletrônicos. Dentro desse mesmo espìrito esotérico se organizam os tecno-pagãos: os ravers e os zippies.

Os Ravers e Zippies.

Herdeiros diretos da contracultura dos anos 70, os ravers e zippies utilizam o que os seus primos hippies deixaram de lado como o inimigo: a tecnologia. Para esses neo-hippies dos anos 90, a tecnologia é, e deve ser, um parceiro para atingir os valores da era de Aquàrio. Assim os computadores e as redes, como Internet por exemplo, são vetores de fortalecimento comunitàrio (as comunidades virtuais), de uma gnose ou pensamento màgico (a manipulação mìstica de dados), de uma estética (imagens de sìntese, realidade virtual, hologramas), da festa e do prazer corporal (a dança, o sexo, as drogas, a mùsica). Os ravers (do inglês "to rave"), simbolizam talvez a mais bela sìntese da cibercultura: através da mùsica "tecno" misturada ao hedonismo do corpo e do espìrito pela dança, o primitivo e o tecnològico interagem de forma simbiòtica. Eles se reùnem em mega-festas (as raves) com o intuito de dançar horas a fio. Assim, mùsica tribal (repetitiva, percussiva), drogas do amor (o êxtase) e todo um aparato de telefones celulares e de redes de computadores para escapar do controle policial (as raves são proibidas em vàrios paìses da Europa) nos mostra como as novas tecnologias se aproximam, pelo uso, a arquétipos ancestrais dos ritos. O movimento rave é assim ao mesmo tempo cultural, social e polìtico. O fenômeno dos zippies é tipicamente inglês (inìcio de 1987) mas vem criando aderentes em vàrias partes do mundo. Eles misturam o sentimento comunitàrio dos hippies com as novas possibilidades das tecnologias do ciberespaço. O movimento foi criado por Frase Clark com o intuito de utilizar o potencial das novas tecnologias para reforçar laços comunitàrios. Zippie significa "Zen Inspired Pagan Professionals" e são herdeiros dos "travellers" (hippies nômades) e da cena "house" que cria, por sua vez, o movimento "tecno" ou "ciber". Os tecnopagãos, como os ravers e zippies, são uma mistura de vàrios movimentos como a cena "squatt" inglesa, os fanzines, os covers designs, os hackers, o ciberespaço, a mùsica eletrônica.

Ciber-Rebeldes?

Esses rebeldes da cibercultura nos mostram como a "rua", na sua dimensão quotidiana, encontra formas de descarregar todo o seu vitalismo (para o melhor ou o pior) a partir da utilização das tecnologias micro-eletrônicas. A tecnologia que sempre foi vista como um fator de separação, de homogeneização e de racionalização se vê investida pelas forças (simbòlicas, imaginàrias, sòcio-culturais) inibidas durante dois séculos de modernidade industrial. A mensagem é simples: se um retorno a uma época pré-tecnològica é impossìvel, o melhor a fazer é tomar as tecnologias nas mãos. No entanto, se o futuro não existe mais e se as ideologias se esgotaram, não existe mais uma rebelião possìvel mas rebeliões efêmeras, estéticas e lùdicas, presas ao "aqui e agora". Assim, os ciber-rebeldes não podem buscar "A" revolução, mas revoluções pontuais. A esquiva, o descaso e a maleabilidade é aqui mais importante que um ataque frontal. Como disse muito bem um zippie inglês: "ao invés de brigar contra o sistema, nòs o estamos ignorando. E essa é a ultima revolução". Afinal se não existem mais ideologias, certezas ou esperanças, contra quem, e com que objetivo, poderia haver uma revolução?

André L.M. Lemos é doutor em sociologia pela Sorbonne, professor e pesquisador do Programa de Pòs-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação (FACOM), UFBA/CNPq.

E-mail: lemos@svn.com.br

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