Retratista fiel das tradições, crenças e costumes do povo baiano, Carybé projetou em sua arte os fundamentos da nação brasileira, na qual se misturam o negro, o índio e o branco. Desprezava a mitificação de seu trabalho, dizendo que "rabiscar papel e pintar telas não são atos de criação". Resumidamente, contentava-se em afirmar: "Eu copio a vida".

Desenhista brilhante, Carybé pertence à mais depurada crônica visual da Bahia, que tanto pode ser vista nos desenhos que criou para os livros de Jorge Amado quanto na vasta galeria de tipos de deuses do candomblé. Amante da vida, foi tocador de pandeiro, bom dançarino e contador de histórias. Seu maior orgulho foi ser Obá de Xangô.

Certamente, por isso, que as cenas da religião afro ocupam boa parte da produção deixada por ele.Dono de uma vasta obra, na qual se estimam cerca de 5.000 trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços, com poucos golpes de pincel, ele era capaz de resumir a forma de baianas prostradas de joelhos com magníficos círculos coloridos.

Suas obras fazem parte do acervo das mais respeitáveis instituições, como o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, Fundação Gulbenkian, de Lisboa, Museu de Arte Moderna da Bahia e São Paulo e Fundação Raymundo de Castro Maya, no Rio de Janeiro.

Com o passar dos anos, os trabalhos de Carybé não pararam de se valorizar e ele passou a viver só de arte. "Um quadro meu vale 10.000 dólares", orgulhava-se ele, no começo de 1997, embora alguns possam chegar a até 30.000. Para ele, não tinha muita importância. "A economia é a peste negra. Nada sei sobre ela", dizia.

Das muitas atividades que desempenhou no Brasil, algumas gostava de citar como curriculares, a exemplo de pandeirista do Bando da Lua, que acompanhava Carmen Miranda, e ilustrador das obras de Jorge Amado, do qual era fraternal amigo desde que passou a morar na Bahia. Foi parceiro de Paulo Vanzolini, autor de capas de livros de Gabriel García Marquéz, ilustrador de Macunaíma, de Mário de Andrade e autor do mural do Memorial da América Latina, em São Paulo.

No decorrer da vida, o artista mingau foi muito pouco premiado - primeiro lugar em desenho numa bienal de São Paulo e por duas vezes sala especial em outras bienais. Gostava de pintar, mas não de ficar expondo, "emoldurar quadros, fazer catálogos, dar entrevistas, essas coisas aborrecidas".

Carybé: o artista mingau

Para ele, a única coisa insuportável na vida era ficar parado, esperando um estalo de criatividade. "Inspiração é besteira", dizia.