Discursos da Ação Primeiras
notas para uma investigação sobre
"enunciação"
Waldomiro José da Silva Filho *
1§
O presente ensaio compõe o corpo de uma pesquisa maior, intitulada genericamente Os Discursos da Ação, onde pretendemos averiguar o solo epistemológico no qual são gestados os princípios conceituais de uma teoria pragmática da significação, notadamente na sua dependência de uma reflexão sobre "argumentação" e "enunciação". Enquanto este primeiro ensaio apresenta a lógica da significação em Charles S. Peirce e Ludwig Wittgenstein, os outros dois ensaios que compreenderão o produto desta pesquisa tratarão respectivamente, num segundo momento, da teoria da linguagem ordinária em John L. Austin, John Searle e no pragmatismo linguístico e da ética do discurso em J. Habermas e K.-O. Apel. O problema que mobiliza este esforço é a assunção da dependência entre "significação" e "enunciação", o que implica explorarmos três pressupostos básicos: a) uma compreensão não substancializada de significação e uma refutação da explicação semântica oferecida pela teoria dos códigos, para, a partir daí, assumir-se as consequências da reflexão sobre condições objetivas (pragmáticas) do discurso e das leis lógicas da argumentação, da inferência e da pertinência (1); b) a percepção de que a enunciação (e o discurso) não é uma ocorrência cuja natureza prioritariamente "oculta" ou "vela" o significado para o qual apenas uma hermenêutica desveladora ao modo de uma crítica da ideologia poderia explicar as tramas ocultadoras (e falseadoras) próprias do discurso, mas, muito pelo contrário, levar em consideração que a enunciação é condição - senão "a" condição - da significação; e c) que a significação é uma disposição para ação. Ao final deste estudo pretendemos ter formulado um referencial suficientemente amplo e tolerante para dialogar com os hodiernos estudos do discurso (2) (que deliberadamente estão ausentes neste texto). Antecipamos que - além de assumirmos o caráter exploratório e provisório das investigações que estamos conduzindo - em considerando os limites estabelecidos para este tipo de apresentação, restringir-nos-emos a uma exposição apenas sumária e esquemática dos autores aqui em questão, sem o compromisso de explicá-los e esgotá-los. Este ensaio deve ser lido como notas para um debate e para uma investigação por realizar-se.
2 §
Dado um discurso enquanto um ato enunciativo que asserta ou propõe algo sobre a realidade (descrição de estados de coisas, estabelecimento de relações interpessoais e expressão de vivências do usuário da linguagem) compartilhado por interlocutores, é possível, grosso modo, formularmos duas perguntas, cada uma com suas próprias implicações: a) podemos, de um lado, perguntar se este discurso diz a verdade, ou seja, se as informações postas no enunciado correspondem mesmo a um estado real de coisas que existem no mundo. A preocupação aqui é a existência ou possibilidade de um perfeito acordo entre a ordem discursiva e a ordem real dos eventos, sob a suspeita de que, utilizando-se dos recursos próprios da linguagem, alguém (por má fé ou ingenuidade) pode não só mentir como também escamotear a verdadeira ordem dos fatos; e b) podemos também, por outro lado, perguntar como este discurso está organizado, como funciona internamente e, consequentemente, como é capaz de produzir um sentido possível e comunicável, estabelecendo inclusive as condições do estabelecimento dos valores de validade de suas pretensões de verdade. A primeira pergunta tem orientado boa parte de estudos aplicados sobre discurso que pretende "avaliar" certas práticas discursivas no interior das práticas socias ao modo de uma Hermenêutica que encontra o verdadeiro e derradeiro conteúdo profundo que se esconde por trás da trama de superfície dos signos. Neste sentido, procura entender as estratégias retóricas que servem para convencer, colonizar o imaginário público, modelar a opinião, entre outras, ocultando deliberadamente, no mais das vezes, os mecanismos da enunciação e a verdadeira ordem das coisas. O conceito de ideologia (e crítica da ideologia), assim como surge primitivamente na orientação marxiana, tem sido o mote central que indica a análise dos discursos como crítica do discurso e dos seus mecanismos de ocultação da ordem (de interesses sociais, econômicos, políticos, etc.) que justifica aquele dado discurso (3). Sem deixar de considerar a fortuna e as variantes deste problema (4), este breve texto pretende explorar as implicações e o alcance da segunda pergunta desta alternativa, averiguando suas matrizes teóricas.
3 §
No campo estritamente filosófico, nas palavras de J. Habermas, a passagem do paradigma da filosofia clássica e sua metafísica do sujeito transcendental para a filosofia da linguagem se constituiu num corte de profundas conseqüências: a partir deste corte, os signos lingüísticos, antes tomados apenas como instrumento ou equipamento na produção das representações, adquiriram então uma dignidade própria, agora como reino intermediário de significados lingüísticos, de modo que as relações entre linguagem e mundo, entre proposição e estado de coisas, passaram a substituir as relações sujeito-objeto. E o processo e o trabalho de constituição do mundo deixam de ser um fazer da subjetividade autônoma e transcendental, para se transformar numa tarefa prática intersubjetiva de construção de estruturas gramaticais (5). Os estudos sobre linguagem, sejam as pesquisas em lógica simbólica ou matemática, sejam as pesquisas sobre a diversidade ou semelhanças estruturais entre as várias línguas naturais, passaram a atribuir uma dimensão não estritamente gramático-filológica aos fenômenos lingüísticos. Ao contrário, o que está em questão a esta altura é precisamente a afirmação da absoluta dependência da existência humana - e daí todos os eventos implicados nesta existência - do fato de que esta experiência - nos valores, nos conceitos - se dá num mundo constituído eminentemente nas teias do trabalho construtivo humano de produção, doação e circulação de significados. Grosso modo, a emergente reflexão sobre linguagem parte do pressuposto de que
Neste viés, a linguagem não pode ser tomada como um material que se dá enquanto arranjo prévio de um sistema fixo que pode ser apreendido de uma vez por todas e utilizado posteriormente num ato de comunicação de mensagens; muito menos, as entidades urdidas na linguagem não podem ser entendidas como entes especulares que refletem imediatamente coisas que já existem previamente ao uso da linguagem ou aos processos históricos e sociais de criação de significado. O homem, diz E. Cassirer, rodeia-se de um mundo de sons para confeccionar o mundo de objetos (7). A linguagem não é um aparato, mas um modo de se organizar o mundo e enformar a experiência, de modo que as regras e as palavras que constituem uma linguagem são a maneira de um processo contínuo do espírito humano expressar sua relação com o mundo e tecer os objetos e a mobília deste mundo. No campo estrito das disciplinas que se ocupam da comunicação, já R. Jakobson, ao compreender a absoluta implicação entre a linguagem e a totalidade da cultura, identifica que o estudo sobre as leis da linguagem verbal deve ser considerado na interação com o estudo das leis dos outros sistemas de significação e dos processos práticos de produção da comunicação, donde um movimento de mão dupla: de uma lado, não há dúvidas de que o crescente ânimo pelos estudos em linguagem foram alimentados como uma resposta ao desenvolvimento tecnológico dos mass media que fez da comunicação um fato central para a nossa civilização, do outro, boa parte das investigações realizadas no interesse de dar conta da especificidade da comunicação foram gestadas no ambiente da reflexão linguageira - como as pesquisas sobre a dimensão simbólica da vida social, os processos de circulação de informação, a produção do sentido e do fato na imprensa e a experiência estética - de modo que, sob as rubricas genéricas de semiótica ou semiologia ou ainda análise do discurso, estavam postos esforços de compreender o caráter gramatical e semiótico (8) da experiência. Esta maneira de conceber não é, no entanto, um movimento homogêneo posto que o tratamento da lingüística - tanto na sua vertente estrutural como geracional, da psicanálise, da antropologia, da hermenêutica, da filosofia analítica da linguagem, da teoria da informação, entre as várias concepções que poderíamos elencar - divergem não só no método, mas mesmo no conceito de linguagem e na definição do imbrincamento entre existência e linguagem.
4 §
Para os limites deste ensaio basta-nos salientar e indicar um modo peculiar de entender as implicações de uma certa intuição que já está presente na obra seminal de von Humboldt no século XIX, a saber, o fato de que
ou seja, a dependência da linguagem dos processos práticos e públicos de constituição de regras de signficação. Neste passo, para o pragmatismo - ao menos na letra da segunda filosofia de L. Wittgenstein (10) - a significação, mesmo a significação de signos lingüísticos que pretendem expressar realmente objetos ou entidades materiais ou mentais, não depende de uma existência efetiva ou de uma realidade extralingüística. São os diferentes usos que fazemos das palavras, a partir de técnicas e modelos construídos pragmaticamente, que nos permitem falar publicamente a respeito de coisas, acontecimentos, mas também nos permitem falar publicamente daquilo que imaginamos ter uma vigência apenas privada, como nossas sensações e emoções. A realidade extralingüística - a saber: empírica, psicológica e ontológica - dos objetos aos quais nos dirigimos por meio de palavras, simplesmente está fora de questão. As condições de significação são dadas inteiramente no interior de múltiplas situações práticas de uso da linguagem e mesmo as tentativas de explicação e veridicção (11) das palavras e proposições, já fazem parte de jogos de linguagem quando se estabelecem gramaticalmente modelos e regras de se dirigir às coisas. Como sabemos, esta segunda fase da filosofia wittgensteiniana não está mais preocupada em tratar a linguagem como uma entidade fixa governada por leis lógicas universais da qual se pudesse estabelecer sua essência através de simbolismo formal (12). Ao contrário, a linguagem na sua totalidade deve ser entendida como um conjunto caleidoscópico de inumeráveis situações de usos de palavras absolutamente dependentes do contexto pragmático, um conjunto de diversas atividades (como descrever, indicar, ler, explicar, apostar, etc.) que envolve palavras, usuários da linguagem e situações de uso. A expressão gramática - longe do termo utilizado pelos lingüísticas para expressar a estrutura estática de uma língua natural - quer precisamente conceituar todo o uso da língua, em sua diversidade e infinidade. Há uma ligação profunda entre Gramática e Mundo sem que, com isso, pense-se, numa existência isomorfa, como o próprio Wittgenstein postulara no seu Tractatus (13), mas, ao contrário, posto que
A investigação gramatical, enquanto reflexão sobre os usos da língua, não atinge o núcleo duro do mundo prévio aos jogos de linguagem, ainda que tenha este mundo como um suposto necessário, uma vez que a gramática é o resultado do trabalho de nosso intelecto ao agirmos sobre o mundo, de modo que a gramática não pode ser encarada como uma coisa ou um dado, mas como uma construção pragmaticamente orientada. Noutro movimento - mas que de qualquer modo pode ser convergente com este (15)(cf. Bouveresse, 1976:II) -, o pragmatismo de C. S. Peirce alimenta uma concepção de linguagem a partir da idéia de que a significação se dá no processo da validação de nossas crenças e fixação de hábitos de se agir numa certa direção. O estabelecimento de um significado é um processo interpretativo (inferencial) de nomeação do primeiro signo por meio de outro signo (seu interpretante), a que seu turno conta com outro signo que só poderá ser interpretado por outro signo, e assim sucessivamente numa cadeia que se não é infinita, ao menos é indefinida, visto que o significado de uma representação não pode ser mais que uma representação (16). Mas se é verdade que a semiose procede por derivações contínuas, é verdade também que
Como Duns Scot, Peirce pensa que o que é importante não é determinar o que é mental e o que não é mental, mas determinar se nosso pensamento se dirige ou não aos objetos reais, dado que o "real é o que significa qualquer coisa de real". Esta atitude serve, de um lado, para evitar uma caricatura do pensamento escolástico ou do cartesianismo, posições estas que participam da ilusão de dar a uma palavra ou definição um sentido universal externo ao pensamento e à linguagem e acreditar que se pode conceber as coisas independentemente de toda relação à concepção que se tem no espírito. Seu pragmatismo prescreve, então, uma atitude face a linguagem, que parte do ponto seguinte:
E se, numa palavra, pensarmos no campo da comunicação, veremos que a resposta pragmática tanto mais é evidente, como ressaltam R. Jakobson e U. Eco, visto que é no interior mesmo das práticas comunicativas - onde estão implicados o engenheiro da comunicação, os processos sociais de comunicação, a ação direta do emissor e do destinatário, numa relação de mútua implicação e dependência, o contexto e os instrumentos postos em movimento para que se dê a comunicação, os arranjos codificantes estatuídos social e historicamente que permitem o reconhecimento de uma expressão num sistema de significação - é no interior deste emaranhado, dizíamos , que se dá a efetividade da linguagem. Por pragmática da comunicação entende-se precisamente este esforço: a concepção de linguagem em sua dependência comunicativa, o que implica na assunção da condição constitutiva do ato do locutário e do ilocutário, do contexto lingüístico e do recurso ao contexto extralingüístico, mas também da disponibilidade de um conhecimento de fundo (19) posto nas crenças e nos jogos de significação convencionados em acordos públicos e da disponibilidade dos atores para a participação no ato comunicativo.
5 §
Ao pragmatismo são comumente associados a utilidade, a eficácia, o sentido da prática e da ação imediata; um certo gosto pelo materialismo, pelo individualismo ou pelo hedonismo, ou ainda, simplesmente, uma certa filosofia americana, onde figuram os nomes de C. S. Peirce, W. James e J. Dewey. Alguns autores salientam que, para se entender o verdadeiro alcance do tratamento pragmático à linguagem, é necessário se estabelecer uma nítida distinção entre pragmatismo e pragmática: enquanto o pragmatismo seria uma filosofia geral da realidade, combinando lógica, epistemologia e ética e acentuando o papel central do sujeito humano como ser que se insere e atua como tal na realidade, significando-a e transformando-a, a pragmática, diversamente, seria uma ramo da semiótica ou ciência geral do signo, ao lado da semântica e da sintática, estudando, no percurso da semiose, a maneira como o signo expressa seu utilizador e os contextos enunciativos (20). Entretanto, com relação ao problema que anima este ensaio, esta demarcação permanecerá momentaneamente em suspenso. O que interessa é aquele motivo filosófico que ancora-se no princípio que é formulado de modo inaugural e definitivo na letra de Peirce: o significado é algo dado pelo conjunto de disposições para agir que este produz; cada significado, mesmo aquele considerado no mais alto nível de abstração, é uma disposição para ação para o homem e é a existência de possíveis efeitos sobre as coisas.
6 §
Nesta perspectiva, há de se considerar, para início de conversa, que o pragmatismo inscreve o seu nascedouro numa reflexão epistemológica, principalmente para responder ao fato de que a ocorrência dos possíveis efeitos de um objeto no agir humano não é qualquer coisa que possa ser delimitável definitivamente, mas sim de infinitamente aberto na práxis humana, de modo que o significado das experiências com as coisas do mundo é um conhecimento débil, sujeito a infinitas modificações. Isso se dá ao ponto do pragmatismo asseverar que o "significado é a disposição para agir que ele próprio produz" (21). A práxis humana é, ao mesmo tempo, um agir interpretativo sempre aberto e renovado do significado do mundo que gradualmente revê o conhecimento estatuído a partir da prontidão de saberes das interpretações anteriores, confrontando-se com os dados empíricos, corrigindo os erros das fases anteriores ao próprio interpretar. Esta correção produz-se porque a ação, portanto, a interpretação real, não é algo de privada ou individual, mas, público e social (22). Esta atitude intelectual está absolutamente inscrita no modo moderno de pensar que sustenta-se sobre a consciência da sua própria precariedade e do seu caráter intersubjetivo. Para o pensamento moderno não existem verdades independentemente das operações do intelecto que concebe, introduz, verifica e, eventualmente, rejeita hipóteses arriscadas a respeito do funcionamento do mundo. Relativamente próximo do que mais tarde K. Popper chamará de falsibilidade (23), Peirce concebe o conhecimento humano e sua abertura de significado como realização de hipóteses que estarão postas à prova no agir humano, desdobrando-se nas conseqüências práticas que este conhecimento produz quando nela se crê ou se descrê. A validação das hipóteses ou a assunção da crença numa hipótese que se mostra feliz (seja científica ou do senso comum ou da moral) não é o reconhecimento de uma ordem necessária do mundo à qual as ações do homem se deva adequar: tudo o que acontece é o modo como os homens (justificadamente ou não, mas seria melhor que fosse justificadamente) depositam suas crenças. Em Peirce ou em Wittgenstein, guardadas as devidas proporções, o pragmatismo - seja quando ataca, respectivamente, o cartesianismo (24) seja quanto ataca a concepção agostiniana da linguagem (25) e enquanto terapêutica da linguagem para esclarecer palavras difíceis e fixar crenças corretas ou para esclarecer o caráter gramatical de uma imagem que se impõe intranspararentemente como necessária é uma concepção anti-essencialista e dessubstancializada do modo como os homens se dirigem ao mundo, e essa perspectiva se sustenta exatamente na compreensão de que estes processos são produzidos praticamente na teia de atos na linguagem.
7 §
Em linhas gerais a fórmula canônica do pragmatismo tem sido atribuída a W. James que trazemos em causa aqui porque, para o problema que nos interessa, ele tem uma tripla importância: a) é o interlocutor fundamental na definição do pensamento da maturidade de Peirce, b) é um autor que deixará uma forte marca sobre o desenvolvimento da segunda filosofia de Wittgenstein e c) é o autor, ao lado de Dewey, a quem recorrerão os pós-pragmatistas atuais para justificar teses de um pragmatismo radical (26). Para James, o pragmatismo deve estabelecer uma recusa de qualquer princípio imamente que dê coerência ao mundo e que, por isso, permita compreendê-lo. Um dos seus postulados centrais é a afirmação de que o mundo não é senão o resultado das relações entre fenômenos (27). Para ele, é da sucessão das experiências que o intelecto extrai a significação de suas idéias e não de qualquer substância intrínseca das coisas (28). A resposta do pragmatismo à questão moderna sobre o fundamento do conhecimento não admite determinar uma verdade absoluta e definitiva, mas apenas verdades débeis e provisórias, vigentes apenas enquanto não forem destronadas por outras verdades, também débeis. A verdade é assim, para o pragmatismo, uma proposição que funciona, instrução para ações que mostraram-se convenientes. "Uma proposição só é verdadeira na medida em que funciona e enquanto funcionar" (29).
Este pragmatismo é um empirismo radical porque exclui toda verdade em que se expresse o significado originário da realidade. Já que a realidade é vista como processo, construção e devir, a verdade não é algo de já existente que possa ser constatado, contemplado ou descoberto, sendo antes e apenas produto. A ação do homem de transformar a realidade torna-a naquilo que o homem quer que seja, isto é, atribui-lhe um siginificado que lhe seja agradável e conviniente. Donde a conclusão que tem marcado boa parte das conseqüências do pragmatismo, ou seja, de que a verdade é aquilo que é bom (30). Peirce, no entanto, mas do que isso, considera a positividade destes processos de consolidação como uma certa forma de garantir as verdades enquanto crenças ou convicções provisórias. O pragmatismo é, para ele, precisamente, a disciplinas destinada a dar conta do processo de validação das nossas crenças, fundadas na indagação da experiência fenomenológica, realidade de tudo aquilo que está presente ao espírito. No seu texto, originalmente escrito em francês, "Comment rendre nos idées claires" (1879), Peirce afirma:
8 §
O ponto de partida a partir do qual se desenvolve a primeira filosofia de Wittgenstein é o de que existe uma ordem lógica perfeitamente definida que estrutura o nosso pensamento. É nas situações em que esta estrutura é furtada pelo uso incorreto ou abusivo da linguagem (por exemplo na boca do metafísico ético ou estético) que o lógico é chamado a intervir para , através de uma análise lógica consciente, reestabelecer a ligação perdida entre a arrumação dos sinais sensorialmente perceptíveis e o pensamento, voltando a impor o domínio lógico sobre aqueles últimos. A lógica possui no Tractatus função de ser a armação formal da linguagem, do pensamento e do mundo (32). Ela é o elemento comum que permite ao pensamento representar a realidade e à linguagem traduzir o pensamento, e por via deste, fazer asserções acerca do mundo (33). É a combinatória lógica que permite a armação de proposições idênticas às arrumações e combinações de estados de coisas possíveis na realidade (34), donde qualquer fato possível no mundo deixa-se assim figurar por uma dada proposição. Cada uma destas proposições define uma determinada posição no espaço lógico no qual têm lugar, por definição, todos os fatos. O mundo é a ocorrência de fatos no espaço lógico (35) e a figuração concorda - ou não concorda - com a realidade. A exigência semântica do Tractatus da existência extralingüística de objetos constituindo a substância , é substituída, do ponto de vista gramatical, pela exigência semântica do estatuto linguístico atribuído às práticas institucionais ligadas à linguagem, como condição de possibilidade da significação (36). De modo que o que é necessário para formarmos proposições dotadas de sentido não são os objetos simples dispostos no mundo, são, outrossim, as regras da gramática.
As regras da gramática, ao definir localmente, as condições de emprego das palavras, define as condições da significação. Wittgenstein comparou a linguagem ao jogo de xadrez, considerando que as peças não representam coisa alguma. Cada peça do jogo só tem por significação a totalidade dos lances a que se presta no jogo. As regras do jogo da linguagem, como as do jogo de xadrez, não podem pretender ancorar-se nalgum fundamento genérico e prévio. Não há ordem ontológica prévia na realidade que as sustente. Estas regras de jogar são autônomas e arbitrárias. Os jogos são livres criações, e saber jogar um jogo é uma capacidade que supõe o domínio de um técnica, consecutiva a uma apredizagem (38): significar é saber usar uma regra. Para o seu Investigações Filosóficas toda significação está em relação interna com sua explicação e sua compreensão na gramática. A significação não é uma entidade abstrata nem uma imagem mental privada. Compreender uma expressão não é nem um estado nem uma ocorrência mental, explicável pela fórmula "formar uma imagem no espírito ou na mente de uma pessoa" (39). A significação de uma expressão é o que compreendemos quando compreendemos a expressão, ou o que explicamos a alguém a propósito de uma expressão que ele não conhecia, apresentando as regras de uma gramática. A descrição gramatical não tematiza objetos do mundo, ou fatos, nem princípios gnoseológicos; seu tema é a necessidade contida nas imagens que procura expressar, sem que transpareça sua condição convencional, um modo de se dirigir ao mundo. A expressão não podemos pensar de outro modo é típica de uma imagem deste gênero (40). Seu interesse não incide sobre a descrição de ligações mecânicas ou causais, mas apenas sobre as relações conceituais, lógicas ou gramaticais geradas no interior dessas práticas. O filósofo da gramática se interessa pelas práticas ligadas à linguagem enquanto são elas a condição de possibilidade das regras de uso das palavras. Regras que são convencionais, mas ao mesmo tempo constituitivas da significação.
9 §
Estes movimentos que traçamos rapidamente acima vão demonstrando a construção daquele horizonte ou solo epistemológico que configurará o pragmatismo. O modo como, por exemplo, tanto Wittgenstein quanto Peirce enfrentam o tema da linguagem privada ou do solipsismo (41), explica perfeitamente essa resposta pragmática à significação. O que está em jogo é a existência da força de um evento racionalmente plural e público (as crenças, as técnicas de uso das palavras, a gramática) em oposição a uma aparente simplicidade privada (a sensação incomunicável) e a investigação sobre a organização de crenças (Peirce) e de gramáticas (Wittgenstein). É, no fim das contas, a investigação do caráter público e contratual da linguagem, cujas leis de publicidade não são externas, mas intrínseca à linguagem. Falar de signficação é descrever esta condição.
Na descrição das quatro incapacidades (42), Peirce dá conta desta dependência da significação: nós não temos nenhum poder de introspecção, mas todo nosso conhecimento do mundo interior é derivado por um raciocínio hipotético de nosso conhecimento de fatos exteriores. Não temos nenhum poder de intuição, mas todos os nossos conhecimentos são logicamente determinados pelos conhecimentos anteriores. Não temos o poder de pensar sem signos. Não temos a concepção do absolutamente incognoscível (43). Do mesmo modo, Wittgenstein ao admitir que a linguagem não é o resultado do estabelecimento de qualquer espécie de relação cognitiva entre um sujeito individual e autônomo e a sua experiência interior e solitária, irá definir o falar e o conhecer como a adoção de um determinado tipo de comportamento normativo público. A formulação de qualquer proposição de conteúdo cognitivo supõe a pré-existência de uma linguagem no seio da qual essa proposição possa adquirir sentido (mesmo expressões tão próprias quanto aquelas que dizem da dor ou do sentimento). J. Bouveresse ressalta inclusive que estão equivocados aqueles que afirmam que Wittgesntein postulara que as sensações são como que acontecimentos que se dão realmente na instância privada, mas que depois são expressos na forma dos usos da linguagem.
10 §
Falar em conseqüências do pragmatismo é indicar os desdobramentos do que acabamos de esboçar rapidamente. É antes, entender como o cenário do pensamento coevo dispõe destas chaves teóricas e metodológicas postas neste horizonte pragmático e as reavalia. Em particular - para o que nos é caro -, é importante saber como a resposta pragmática situa-se no campo de problemas instaurados pelas novas condições da existência; postas pela consolidação de uma cultura dos mídia, onde os processos comunicativos (e os processos tecnológicos da comunicação) autonomizam de modo nunca antes averiguado, a esfera do ato comunicativo. A competência comunicativa sobre a qual incide a preocupação pragmática, se traduz na capacidade do locutor, fazendo uso de frases gramaticalmente corretas, a) recolher um conteúdo para um enunciado de acordo com as pressuposições de existência do estado de coisas que pretende levar ao conhecimento do ouvinte, a fim de partilhar com ele o saber que possui; b) exprimir as suas intenções mediante uma emissão sígnica que reproduza o que realmente pensa, de modo a merecer a confiança do ouvinte; c) realizar o ato de fala em termos que, respeitando o quadro axiológico-normativo vigente, permitam chegar com o ouvinte a um acordo sobre os valores em causa.
11 §
O fato de que há significação e verdade, mais ainda, um universo de vivências humanas e pelo fato de que possuimos um mundo mobiliado (semanticamente), tudo isso depende desta ocorrência primeira que é o "evento discursivo".
*Waldomiro José da Silva Filho é doutorando em Comunicação e Cultura e professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA.
NOTAS
1. Cf. D. Sperber & D. Wilson, La Pertinence, trad. A. Gerschenfeld, Paris, Minuit,1989. 2. Cf. H. Parret, Enunciação e Pragmática, trad. Eni P. Orlandi et al., Campinas, Editora da Unicamp, 1988 ; cf. também E. Orlandi (org.) Gestos de Leitura. Da história no discurso, trad. Bethania S. C. Mariani et al., Campinas, Editora da Unicamp, 1994 3. Cf. M. Debrun, Ideologia e Realidade, Rio de Janeiro, ISEB, 1959; S. P. Rouanet, Imaginário e Dominação, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1978. 4. Cf. W. Gomes, "O olhar oblíquo" in: Textos de Cultura e Comunicação (1992) 27, Salvador, Mestrado de Comunicação e Cultura Contemporânea da UFBA. 5. Cf. J. Habermas, Pensamento Pós-metafísico. Estudos Filosóficos, trad. Flávio B. Siebeneichler, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1990:15. 6. E. Cassirer, La Philosophie des Formes Symboliques. I, Le Langage, trad. Ole Hansen-Love et Jean Lacoste, Paris, Minuit, 1972:36. 7. Cf. idem:34. 8. A semiótica - deferentemente do modo como vem sendo usada em nosso ambiente acadêmico e numa certa tradição francesa é uma teoria dos signos enquanto tipologia dos signos ou transposição de regras da lingüística (tal como Barthes) para o campo geral dos signos. Ao contrário, a semiótica é uma lógica, e a lógica, enquanto tal, é uma teoria da argumentação. 9. W. von Humboldt, Sobre la Diversidad de la Estructura del Lenguaje Humano y su Influencia sobre el Desarrollo Espiritual de la Humanidad, trad. Ana Agud, Barcelona, Anthropos, 1990:77. 10. Cf. L. Wittgenstein Investigations Philosophiques, trad. Pierre Klossowski, Paris, Gallimard, 1990; Le Cahier Bleu et le Cahier Brun, trad. Guy Durand, Paris, Gallimard, 1988. 11. Cf. W. V. Quine, Las Raíces de la Referencia, trad. Manuel Sacristán, Madrid, Biblioteca de la Revista de Occidente, 1977. 12. L. Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, trad. Luiz H. L. dos Santos, São Paulo, Edusp, 1993. 13. Cf. idem, § 4.002 e § 5.61. 14. L. Wittgenstein, Fichas (Zettel), trad. Ana B. da Costa, Lisboa, Edições 70, 1989: §55. 15. Cf. J. Bouvesse, Le Myte de lIntériorité. Expérience, signification et langage privé chez Wittgenstein, Paris, Minuit, 1987:II. 16. Cf. Ch. S. Peirce, The Collected Papers of C. S. Peirce (CP), 1.339, 2.228 3 4.127. 17. Ch. Peirce, CP 5.491. 18. Ch. Peirce, CP 5.9. 19. Cf. U. Eco, Lector in Fabula, Milano, Bompiani, 1979:2. 20. Cf. Parret, op. cit, 28. 21. Cf. W. James, Pragmatismo e outros ensaios, trad. Joseph L. Blau, Rio de Janeiro, Lidador, 1967. 22. Cf. A. D. Rodrigues, Introdução à Semiótica, Lisboa, Presença. 1991. 23. Cf. K. Popper, Conjecturas e Refutações, trad. Sérgio Bath, Brasília, EDUNB, 1982. 24. Cf. Peirce, CP 5.264ss. 25. Cf. Wittgenstein Investigations 26. Cf. R. Rorty, Conséquences du Pragmatisme, trad. Jean-Pierre Cometti, Paris, Seuil, 1993. 27. Cf. Rodrigues, op. cit, 80ss; cf. também W. James, Principio de Psicología, trad. Agustín Bárcena, México, Fondo de Cultura Económica, 1989. 28. Cf. James, Pragmatismo. 29. Cf. Rodrigues, op. cit. 30. Cf. Rorty, op. cit, 14. 31. Peirce, "Comment rendre nos idées claires" in: Textes Anticartésiens, trad. Joseph Chenu, Paris, Aubier, 1984:292. 32. Cf. Wittgenstein, Tractatus, § 5.6 e 5.61. 33. Cf. A. Zilhão, Linguagem da Filosofia e Filosofia da Linguagem: Estudos sobre Wittgenstein, Lisboa, Colibri, 1993. 34. Cf. Wittgenstein, Tractatus, § 2.2 e 3.22. 35. Cf. idem, § 2.11. 36. Cf. A. Moreno, Wittgenstein através das Imagens, Campinas, Editora da Unicamp, 1993. 37. Wittgenstein, Remarques Philosophiques, trad. Jacques Fauve, Paris, Gallimard, 1975:306. 38. Cf. Wittgenstein, Investigations. 39. Cf. W. Spaniol, Filosofia e Método no Segundo Wittgenstein, São Paulo, Loyola, 1989:II. 40. Cf. Moreno, op. cit. 41. Cf. Bouveresse, op. cit; Zilhão, op. cit; C. Tiercelin, C. S. Peirce et le Pragmatisme, Paris, PUF, 1993. 42. Cf. Peirce, "Algumas consequências a certas incapacidades reivindicadas pelo homem" in: Semiótica, trad. José T. Coelho, São Paulo, Perspectiva, 1977. 43. Cf. Pierce, CP 5.264. 44. J. Habermas, Discurso Filosófico da Modernidade, trad. Ana M. Bernardo et al., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990:277.
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