INGENUIDADE E RECEPÇÃO
As relações da criança com a tv

Itânia Gomes*

 

Demorou muito tempo até que
se desse conta de que as crianças não são homens
ou mulheres em dimensões reduzidas.
As crianças criam para si, brincando, o pequeno mundo próprio.

Walter Benjamin

 

 

A inevitabilidade da televisão nas sociedades contemporâneas, sua influência sobre as crianças e as desesperadas - e por vezes ingênuas! - estratégias dos pais para protegê-las são com frequência alvo das preocupações de setores acadêmicos ou da imprensa. Atribuindo à TV uma ascendência frequentemente totalitária sobre as crianças, aqui e ali irão despontar análises de como as horas de exposição à telinha tornam as crianças vulneráveis ao consumo, aos conteúdos violentos, a uma formação emocional e sexual precoce e - mais grave - como, apontando para a criança, a TV está garantindo a perpetuação do sistema político e econômico hegemônico.

Em grande parte das famílias, são as crianças que ligam os aparelhos de TV, definem a programação que será assistida e até sua localização no espaço doméstico. Isso não significa, no entanto, que as pesquisas sobre televisão e criança dêem conta desta relação tão rica. Analisa-se a TV sob a perspectiva da vilania, mas as crianças, enquanto atores do processo receptivo, e os jogos que fazem com a TV, ficam de fora.

Em geral, a lógica dos meios é reforçada pelo suposto caráter eminentemente passivo da criança, que, por ser criança, não teria ainda o instrumental que lhe permitiria ser crítica, o que a tornaria necessariamente favorável às mensagens televisivas, uma vez que "somente a partir de uma postura crítica é possível absorvê-la [a TV] com isenção e perceber suas sutilezas, seus efeitos, suas possibilidades" (CASTRO. 1975 apud CRIPPA.1984: 68). Considerar a criança como criança, aqui, não é tomá-la em sua especificidade, mas como uma miniatura do mundo adulto.

Existem autores para quem o simples fato de assistir televisão favorece, na criança, uma "atividade mental passiva"(CRIPPA. 1984:65). Deitada, imóvel, a criança consome tudo que aparece e absorve como uma esponja os conteúdos emitidos pela TV:

"Na realidade, podemos observar que as crianças vêem TV e nem discutem a informação. Recebem passivamente as mensagens sem analisar profundamente o que estão assistindo. Nem dizem se gostam ou não do que estão vendo. Ninguém comenta o que assiste. Simplesmente vêem e observam, consomem sem fazer uma análise. Muitas vezes as crianças se ‘desligam’ do mundo real e entram para o mundo da TV... Estão absortas no que a TV está ‘ordenando’... Esquecem o paladar como se a TV fosse um anestésico" (Id.Ibid.: 66, g.n.)

Temos, em um primeiro momento, uma concepção de que a recepção só se torna ativa se for analítica, no sentido de uma interpretação que decomponha dados, relacione valores, e se se considera que a criança tem limitadas capacidades de análise e raciocínio e uma formação ainda imatura, não se pode deixar de vê-la como um ser impotente (cf.Id.Ibid.:76;78;84) diante de uma televisão que abusa da criança naquilo que ela tem de frágil e vulnerável.

Por outro lado, devemos levar em consideração que algumas pesquisas empíricas têm questionado a idéia de um receptor passivo demonstrando que ao invés de uma atividade mental passiva (sic), os receptores estão mental e fisicamente ativos em sua interação com a TV . Já se mediu inclusive a quantidade de esforço mental investido pelas crianças enquanto elas vêem televisão ( cf. OROZCO. 1991a:114), esforço que se dá em três níveis, atenção-percepção, assimilação-compreensão e apropriação-significação, não necessariamente sequenciais - a atenção pode ser resultado da compreensão.

"O fato de que nenhum destes esforços cognitivos necessariamente tenha que seguir uma sequência linear, implica que sua articulação não é por lógica, senão por associação, e por definição as associações são produzidas, supõem uma aprendizagem e portanto implicam uma atividade mental, ainda que pareçam automáticas" (OROZCO.1990: 35).

Ainda em um segundo aspecto, tal concepção de que a TV favorece uma recepção passiva também considera que o processo receptivo esgota-se no momento mesmo em que se assiste televisão. É essa abordagem do processo receptivo que fará com que alguns autores preocupem-se em pesquisar como se dá esse contato imediato entre a criança e a TV e ofereçam sugestões de como interferir nesse momento específico. Lucilene CURY, em sua dissertação de mestrado, irá fazer um alerta aos pais e educadores no sentido de que eles garantam "que a mensagem televisiva seja recebida por grupos de crianças, de modo que as relações de amizade ou mesmo de parentesco entre elas possam garantir a existência da comunicação interpessoal" (CURY. 1982:99/100).

O problema continuará sendo o de estabelecer os meios de proteger o receptor infantil. Tal estratégia, segundo a autora, iria possibilitar que as crianças se ajudassem mutuamente na decodificação das imagens e sons recebidos e, mais importante, que elas discutissem a mensagem recebida. Por outro lado, assistir televisão acompanhada por amigos evitaria que o tempo de exposição à TV fosse um fator de isolamento social da criança, ao tempo em que iria minimizar os efeitos negativos da programação da televisão (cf.Id.Ibid.: 100).

O que a autora percebe aqui e que é ratificado por várias pesquisas de recepção é que os companheiros constituem, especialmente para a recepção infantil e jovem, um dos principais grupos de referência, aqueles a partir dos quais se dá a interpretação e apropriação dos significados das mensagens televisivas. As mensagens recebidas são como que submetidas às diversas "comunidades de apropriação" às quais pertence o receptor e é a partir delas que ganham sentido, gerando a produção de significados. A questão é que essas comunidades de interpretação têm sua influência no processo receptivo antes, durante e depois do momento em que a emissão ocorre, quando o que se observa aqui é uma concepção de que a recepção esgota-se no momento mesmo em que se tem contato direto e físico com as mensagens dos meios de comunicação. Já se admite, nas correntes mais recentes dos estudos críticos da recepção1, que ela começa bem antes e acaba bem depois do momento mesmo em que se dá o contato direto com os meios, ela o transcende e funde-se com as práticas cotidianas dos receptores, lugar onde os significados e sentidos são negociados e se realiza sua apropriação ou resistência (cf. OROZCO. 1991b:10).

Para que um grupo de amigos, a família ou outras instâncias contribuam na recepção infantil não é necessário que eles estejam em contato nesse exato momento:

"Pertencer a uma comunidade de apropriação é compartilhar de uma mesma maneira de produzir sentido, e o fato de o processo de recepção não se restringir ao ato de ver TV faz com que o resultado final derive de apropriações subsequentes. Por exemplo, a apropriação que um adolescente faz dos conteúdos massivos pode passar por diversos grupos a que pertença, como os adolescentes da vizinhança, os colegas do colégio, a turma do clube, resultando em confirmação de sua primeira apropriação ou em re-apropriações sugeridas pelos diferentes grupos" (JACKS. 1993:50, g.n.).

Portanto, não é apenas assistindo TV em grupo que as crianças irão se ajudar na "decodificação" das imagens e sons.

Assistir às emissões televisivas acompanhadas por amigos seria importante ainda, segundo Lucilene CURY, para uma melhor recepção infantil em um aspecto que é recorrente em vários autores que tratam do assunto:

"É bastante comum o fato de que a criança costuma alternar os momentos de atenção ao programa com momentos de devaneio, durante os quais continua de olhos pregados no televisor como se experimentasse um estado de torpor, de adormecimento, que fatalmente será interrompido pela presença de outra criança no momento em que essa fizer qualquer comentário, ligado ou não ao programa" (CURY.1982:100).

Ao contrário do que alguns autores querem fazer crer, acreditamos que esses momentos de alternância entre concentração e dispersão, de devaneio da criança diante da telinha, não denotam sua passividade, mas a forma como a criança se afirma enquanto sujeito no processo comunicativo. Em uma pesquisa de campo sobre a recepção televisiva infantil2 identificamos que a criança tem uma recepção especialmente seletiva. Quando ela tem as condições, seja por amadurecimento intelectual, seja por dispor de outras opções de lazer, ela reage com a seleção da programação assistida. Quando não tem tais condições, ela encontra outros refúgios: em algumas crianças a dispersão aparece como uma forma muito especial de reagir à programação que não corresponde às suas necessidades. Percebida através da investigação do comportamento das crianças diante da TV, especificamente se elas desenvolviam outras atividades, enquanto estavam com a TV ligada, a dispersão apareceu, na nossa pesquisa, como a reação possível para a maior parte das crianças de classe social mais baixa. Isso nos evidenciou que a relação da criança com a TV é muito mais complexa do que se imagina: a dispersão (considerada aqui como uma atenção flutuante) é um elemento constitutivo do modo como as crianças estabelecem uma interação com a TV.

Essa interação, entretanto, passa despercebida pela maior parte dos pesquisadores. Em geral, considera-se que a criança se deixa levar pelas promessas da fada/bruxa e faz tudo aquilo que a TV manda. O primeiro pedido é para que a criança torne-se consumidora voraz. Algumas estatísticas dão conta de que uma criança assistiria em torno de 400 mil comerciais durante sua vida escolar (cf. TEIXEIRA. 1985:20; CRIPPA.1984:72), o que colocaria os comerciais de TV como um dos principais determinantes na socialização da criança como consumidora. O alvo inicial são os hábitos alimentares, que passariam a ser definidos pelos anúncios de doces, refrigerantes, salgadinhos, achocolatados, iogurtes e fast food que já contribuem com cerca de 80% dos comerciais dirigidos às crianças (cf.LEWIN. 1992: 506).

Num trabalho que pretende subsidiar decisões governamentais a respeito da regulamentação dos comerciais, Zaida Grinberg LEWIN alerta para fato o de que as peças publicitárias investem nas vulnerabilidades cognitivas da criança:

"Por exemplo, uma marca de iogurte bastante conhecida no mercado assegura à criança, se consumido seu produto, força suficiente para levantar um refrigerador. Misturar ao leite determinada marca de chocolate em pó permite à criança ingressar num mundo de heróis, fantasias e diversão"(Id.Ibid.: 506).

A autora afirma que a criança tende a acreditar fortemente nos atributos prometidos pelo produto anunciado e traz, para reforçar seu argumento, resultados de pesquisa que demonstram que a criança tem na TV sua principal fonte de informação sobre produtos alimentares e brinquedos ou, ainda, de que a criança gostaria de adquirir a maioria das coisas mostradas na TV. Ora, ter a TV como principal fonte de informação sobre as novidades do mercado não significa, necessariamente, que a criança acredite que poderá, por exemplo, carregar um elefante ou ingressar no mundo maravilhoso dos super-heróis - alguns autores apontam para o fato de que a criança sabe que é ficção (voltaremos a isso mais adiante).

Querer possuir os brinquedos, roupas e mesmo produtos alimentares mostrados na tela não necessariamente irá fazer da criança um animal consumidor e não é prova cabal de que os desejos infantis são manipulados pelos comerciais. Diz - e apenas isso - que a criança gostaria de possuir tais produtos. Se ela vai pedir à mãe que compre tal ou qual brinquedo ou biscoito, ou se ela vai passar o resto da vida frustrada porque não teve aquele trenzinho à pilha é uma outra história.

Numa pesquisa realizada com adolescentes, Heloísa Dupas PENTEADO identifica que a maior concentração de respostas dos entrevistados, em relação à credibilidade da propaganda, foi em torno da variável não acredito nas informações sobre os produtos que anunciam (cf. Id. 1983:140). Entretanto, a autora quase que desconsidera esta alta concentração e o que ela significa e concentra-se no fato de que boa parte dos adolescentes já tinha tido vontade de comprar alguma coisa vista na TV ou de que os comerciais e mensagens são agradáveis de serem vistos, para em seguida afirmar categoricamente: "A TV junto aos adolescentes é um eficiente veículo da sociedade de consumo a serviço da qual funciona" (Id.Ibid.: 141). Ora, a propaganda brasileira é uma das mais criativas e mais premiadas do mundo, chegando a ocupar o terceiro lugar no ranking internacional, perdendo apenas para Estados Unidos e Inglaterra (cf. ALONSO. 1991:13) e o que deveríamos estranhar é se os entrevistados afirmassem não gostar das peças publicitárias, em especial daquelas voltadas para esse público alvo.

Ao invés de ignorar depoimentos tão significativos das crianças, quando elas demonstram que não estão recebendo as mensagens televisivas do jeito que os programadores e anunciantes desejariam, quando elas demonstram suas diferentes formas de apropriação dos conteúdos, a investigação sobre a recepção televisiva infantil deveria buscar os elementos que o mercado publicitário já percebeu. Célia BELÉM, vice-presidente e diretora de planejamento estratégico da agência de publicidade MPM Lintas, diz que é necessário gastar muito dinheiro em pesquisa para conseguir estar atualizado com o mundo infantil, extremamente mutante e exigente. Estar atualizado a respeito das referências, códigos, interesses e preocupações do mundo infantil é estar o tempo todo correndo atrás do tempo:

"Devemos descartar totalmente a idéia de que elas [as crianças] são indivíduos passivos que apenas absorvem informação, sem reagir ou dar sua contribuição (...) É bom lembrar ainda, que ao contrário de outras gerações, esta tem um longo aprendizado com formas, admira a linguagem visual, gosta de efeitos cinematográficos e estará sempre julgando a propaganda também pelo seu formato. Tudo isto para dizer que a criança não é um público simples e que engole qualquer tipo de comunicação. Mais do que nunca, hoje, ela é um telespectador exigente e um consumidor especial... Em qualquer momento ela pode, por não entender ou não gostar do que se diz, trocar de canal" (BELÉM.1995:03,g.n.).

Tal postura é absolutamente inversa à que pauta a maior parte das pesquisas acadêmicas sobre o assunto. Nelas, considera-se que as crianças devem ser tratadas de modo especial porque seriam indefesas aos processos empregados para criar desejo de compra, seriam "crianças pequenas sem nenhuma defesa mental contra tantos apelos ao consumismo" (CRIPPA. 1984:05,g.n.).

Sendo as crianças consideradas como "criaturas de reflexos condicionados" (Id.Ibid.: 74), sem consciência das suas atitudes e sentimentos e com limitadas capacidades de análise e raciocínio, as mensagens comerciais provocariam um vício mercantilista (cf.Id.Ibid.: 70). Para CRIPPA, considerar o receptor infantil em sua especificidade é considerá-lo "como criança que é, como pessoa e como um ser impotente, indefesa diante de tantos apelos de consumo" (Id.Ibid.: 84,g.n.).

O que, no entanto, mais inquieta os que analisam a relação da TV com o público infantil é a vinculação da televisão, particularmente da televisão brasileira,

"com a organização monopolista do mercado e com o processo de intercâmbio internacional capitalista(...) [o que explica] a intensa exploração do público infantil visando não apenas ao consumo imediato, mas também à formação da mentalidade consumista a partir da infância, tal qual se dá em relação aos valores sexistas e aos demais valores de sustentação da ideologia dominante" (SARQUES. 1989:96).

Os efeitos da propaganda na criança não se restringem, para a maior parte dos autores, apenas aos hábitos de consumo, existiriam ainda os efeitos colaterais, que se referem ao tipo de percepção da realidade social que a criança aprende com os anúncios, mas não só com eles - também com as novelas, os filmes, os desenhos, os programas de auditório, sem falar no merchandising inserido em quase todos os gêneros da programação infantil. São considerados aspectos centrais nas discussões sobre criança e televisão a percepção do amor e do sexo, a exacerbação da violência e indução ao conformismo.

O problema é que, em geral, índices e observações sobre as características das emissões televisivas dão margem a uma posterior transposição para o campo da recepção, transposição recorrente em boa parte das pesquisas que se realizaram no Brasil e que tentam mostrar, com a análise da programação televisiva, como a TV aliena, idiotiza a criança, causa dependência, pode ser perniciosa para o seu desenvolvimento mental e emocional. Mas a avaliação da programação televisiva é algo que se exerce no próprio campo da recepção, inclusive o infantil. Que a TV tenha programas idiotas, até a própria criança percebe. Daí afirmar-se que os conteúdos televisivos são idiotizantes, é pressupor uma eficácia que eles necessariamente não têm e que efetivamente só poderá ser verificada por estudos de recepção.

Do mesmo modo, da constatação de que um programa é violento não decorre que a criança que o assista tornar-se-á violenta. O que se tem hoje, como ponto definitivo, é que a influência da TV no comportamento agressivo da criança é um tema de controvérsia, já que nenhuma pesquisa ou debate aponta para dados ou informações concludentes. Algumas pesquisas, entretanto, demonstraram que "os comportamentos agressivos de um personagem ‘real’ (um ator ou uma atriz) despertam mais sentimentos de ansiedade que a agressão mostrada pelos personagens de desenho animado" (BASTOS. 1988:44), mas serão eles os principais acusados de incentivar a violência, vindo a perder esse posto só mais recentemente, com o boom dos chamados seriados japoneses, montados na exibição das lutas marciais.

Criado em 1940 por Walter LANTZ nos Estados Unidos e desde 1957 trazido para a televisão, o Pica-pau talvez seja, dentre os personagens dos desenhos animados, aquele que mais despertou paixões, sendo, desde o início adorado pelas crianças e envolvido em problemas com a censura e a imprensa por causa da violência, sobretudo nas sequências de explosão de armas de fogo ou quando o pássaro ataca alguém na cabeça. Com um perfil considerado "extremamente ativo e rápido, quase extremamente alegre, feliz e forte; excitante, inteligente, simpático, quase bonito; tendendo a ligeiramente mau, desagradável, desonesto e agressor verbal; quase perigoso e grosseiro; agressivo e agressor físico" (BERALDI.1978 apud FUSARI. 1985: 65,g.n.), Pica-pau precisará da defesa do seu criador, que diz apenas fazer desenhos de palhaçadas, e chama atenção para um aspecto importante:

"ninguém sangra ou morre nesses desenhos animados. Se alguém fica todo esburacado de tiros, volta ao normal na última cena; se seus dentes caem, todos estão firmes no último instante. A dificuldade, hoje, é que esses grupos que têm se firmado a se próprios como censores não sabem do que estão falando, porque não vêem esses desenhos animados com olhos de criança" (apud FUSARI. Ibid.: 42).

O que o criador do Pica-pau traz em seu favor é o que também foi identificado em algumas pesquisas: quando mostrada de maneira estereotipada, seja nos desenhos, nos filmes cômicos ou nos mais recentes filmes de terror - aqueles que ao invés de aterrorizar provocam acessos de riso nas crianças -, a violência não provoca agressividade, ou perda de sono, ou medo e ansiedade (cf. BASTOS.1988: 44). A criança sabe que é faz-de-conta.

Sempre envolvido em disputas de prêmios em dinheiro ou mulher, em lutas pela defesa ou recuperação de bens pessoais e caracterizado pela ausência de ambiência social - o Pica-pau não tem família (cf.FUSARI.1985: 89-127)- o personagem de Walter LANTZ será colocado no banco dos réus por, sendo um produto da indústria cultural, contribuir para a reprodução da ideologia dominante, através da imposição de estereótipos e mitos que deformam a realidade. São esses mitos o centro das críticas de Elza Dias PACHECO, que, de saída, faz opção por uma abordagem maniqueísta do irônico pássaro de riso estridente: seria o Pica-pau herói ou vilão? É óbvio que a autora irá optar pelo último termo. O Pica-pau "discrepa do tipo de herói tradicional, pois ele não está a serviço do bem coletivo, mas, ao contrário, ressalta o individualismo. A sua força reside na esperteza, que é sempre usada em benefício próprio" (PACHECO. 1985:228,g.n.). Ele reforça ainda, segundo a autora, as relações de dominação, na medida em que faz apologia da hierarquia e do conformismo.

A preocupação com os desenhos, mas que, de maneira geral, se aplica à televisão, será justificada por questões como:

"...Será que tais desenhos nos interessam, já que temos uma sociedade com uma estrutura arcaica, com problemas específicos para ser resolvidos, com outras necessidades e o que a televisão nos mostra diariamente é, através de ‘enlatados’, uma sociedade de consumo cheia de ilusões que nós não podemos alcançar e para as quais não temos defesas? Além disto, mostram-nos um mundo irreal... Por outro lado, as contradições não são mostradas... Então, até que ponto tais conteúdos não geram uma forma de alienação? Os divertimentos devem ser criativos, mas não a partir da fuga do real, mas sim a partir do real. Será que para um país como o nosso, a indústria do desperdício nos interessa? Será que a moral deles, a da esperteza, onde o ‘bem’ é salvar o que é seu, é útil para nossas crianças? " (PACHECO.Ibid.:230,g.n.).

Temos aqui sintetizado o núcleo da maior parte da crítica que se faz aos programas televisivos de um modo geral. O Pica-pau é tomado apenas como um pretexto para a afirmação de uma concepção globalizante da relação entre televisão e receptores: por um lado, temos uma TV que aliena, difunde valores próprios ao capitalismo, contribui para a reprodução do sistema dominante na medida em que reforça o conformismo; por outro, temos um telespectador ingênuo, imaturo, indefeso.

Mais recentemente Elza Dias PACHECO parece ter despertado para uma questão que nos parece fundamental para pensarmos a relação entre a criança e a TV: "A reflexão sobre TV, programação infantil e cultura nos induz... à compreensão do que seja uma criança: como pensa, como sente, como percebe, como representa as coisas, os eventos do seu cotidiano" (Id. 1995: 43). Ela vai tocar num ponto chave para uma visada mais positiva sobre o tema que nos interessa:

"...É inaceitável acreditar que... a criança seja passiva e acrítica. É inacreditável pensar que ela confunda ficção com realidade. Aliás, eu creio que uma não existe sem a outra. Não há realidade que não seja mesclada de ficção e esta baseia-se no real. A criança...transita de uma para a outra e se diverte. Ela sabe que toda história tem um final feliz" (Id.Ibid.: 46/47).

Ela sabe que é faz-de-conta e talvez fosse isso que nos queria dizer LANTZ, ao fazer a defesa do seu Pica-pau e exigir que seus desenhos fossem analisados a partir da consideração da ótica da criança que os assiste. Esse olhar de criança, que foi reivindicado durante todo o tempo por Walter BENJAMIN em suas reflexões sobre o mundo infantil3 , parece mostrar-se de modo evidente no brincar, atividade inerente ao cotidiano da criança e fundamental para seu desenvolvimento emocional e intelectual. Não estamos, obviamente, demandando que o adulto saia do seu lugar e assuma o lugar da criança - o que de todo modo seria impossível; mas que, entendendo a propriedade dos processos cognitivos e emocionais infantis, não peque por reduzir sua relação com o mundo a uma miniatura da relação que o adulto mantém com este mesmo mundo.

Na esfera da recepção televisiva, perceber a especificidade do mundo infantil poderá levar-nos a, para além daquelas concepções que tomam a criança como essencialmente passiva diante dos meios de comunicação, perceber no brincar a evidência máxima da sua atividade. A TV ingressa no mundo infantil do mesmo modo que todas as outras coisas, pelo lúdico; diante da TV a criança comporta-se como numa brincadeira, um divertimento a mais (cf.BASTOS.1988: 14).

Olhar a TV com olhos de criança implica em perceber que a criança brinca com a televisão e aí, talvez esteja o seu maior trunfo.

" Elas [as crianças] não apenas assistem à TV, como interagem com ela e brincam, utilizando seus códigos e símbolos como parte integrante de um espaço lúdico no qual agem. Em outros termos, a criança não apenas consome o produto, mas o reconstrói pelo seu próprio imaginário" (MIRANDA.1992:128).

No momento em que soubermos perceber que, como toda a vida da criança, também a sua relação com a televisão constitui-se um espaço para o desenvolvimento lúdico, participando do seu universo de interações, descobertas, investigações, evidenciaremos o caráter ativo da recepção infantil. E mais, se é através da brincadeira que a criança ingressa no mundo da fantasia, que lhe permite elaborar angústias de perda, de morte, de solidão, a relação da criança com a TV, mais que jogá-la no mundo fantasioso, irreal, mais que fazê-la confundir ficção e realidade, contribui para seu pleno desenvolvimento intelectual e emocional.

"Supõe-se habitualmente que o fantástico reprime na criança a construção do real, como se o real devesse inevitavelmente ser elaborado contra o imaginário, ou o imaginário contra o real. [Tal concepção] nascerá de duas causas tão ligadas: de um lado, espécie de desprezo inconsciente da criança, subestima-se sua capacidade de aprender a construir, pouco a pouco, uma ficção sabendo que é uma ficção, de entrar na ficção de outrem tendo consciência disso. De outro lado, visão muito esquemática e dicotômica do desenvolvimento respectivo da inteligência lógica conceitual, e da imaginação" (HELD.1980: 47/48).

Preocupados com a formação do pensamento e da imaginação no mundo contemporâneo, alguns autores (KEHL.1991; NOVAES.1991; BERGER.1979) irão tentar mostrar como a TV, apresentando-se como objeto total, que nunca se ausenta, e sendo regida pela lei do gozo, impediria a criança de simbolizar - cuja condição fundamental é a ausência do objeto - e, consequentemente, de pensar. "A TV tirou da criança a habilidade de compor figuras em sua mente" (TEIXEIRA.1985:17,g.n.). Ou ainda irão acusar a linguagem televisiva de combinar o real e o imaginário de forma alucinatória. Essa relação, a nosso ver, poderia ser subvertida se fosse considerado que a TV participa do mundo infantil através dos jogos e brincadeiras, através dos quais a criança forma o conhecimento do meio, de si e do outro.

A experiência de simbolização - a grosso modo, a representação mental de um objeto ausente - foi observada por Freud nos jogos infantis caracterizados pelo aparecer/desaparecer4 e que funcionavam para a criança como a tentativa de dominar, com tais jogos, o medo e a ansiedade provocados pela ausência da mãe. Desaparecer significando a perda - a ausência da mãe, o contato com o real -, o reaparecimento significando a reparação, o contato com o imaginário, a posse do objeto perdido, a mãe. Tais jogos permitem que a criança elabore seus medos e assim atinja seu amadurecimento emocional. É isso que explica o que Walter BENJAMIN chama de lei da repetição e que constituiria a essência do brincar - a transformação da experiência mais sofrida em hábito: "Não se trata apenas de um caminho para tornar-se senhor de terríveis experiências primordiais, mediante o embotamento, juramentos maliciosos ou paródia, mas também de saborear, sempre com renovada intensidade, os trunfos e vitórias" (Id. 1984: 75).

Perceber que a criança interage com a TV, trazendo-a para o seu pequeno mundo próprio, possibilitaria rever uma suposição comum entre pais, professores e intelectuais, segundo a qual a TV provocaria "uma asfixia da imaginação criativa da criança" (TEIXEIRA.1985: 17) ao lhe oferecer um mundo mágico, com bruxas, monstros, mistério, fantasia. A criança estaria substituindo seus jogos e brincadeiras pela programação televisiva:

"Assim, impossibilitadas de fazer contato com o real, as crianças passam das atividades de criação para as atividades de recepção do produto cultural que lhes é oferecido como objeto acabado. É a cultura da substituição do real pelo simbólico..." (PACHECO. 1991:11)

Acreditamos que, ao se colocar diante da TV, a criança não está substituindo suas brincadeiras pela tela, mas encontrando na tela um outro brincar, evidentemente diferente das brincadeiras de rua, como são diferentes as brincadeiras entre si. Nesse sentido, a criança não estaria passando da atividade de criação para a atividade de recepção de produtos acabados, nos termos colocados por Elza PACHECO. São as brincadeiras que irão permitir à criança o exercício de sua atividade criadora: "...O brincar é uma das mais requintadas formas de ato poético. Brincando, eu me afirmo, eu construo e diviso o mundo com um saber que só o ato de criação permite" (VASCONCELOS. 1991:131), brincando eu exercito minha imaginação e manipulo os objetos, mudo suas formas, seus significados. A realidade é reinterpretada, adquirindo, a cada brincadeira, novos valores e sentidos.

"...O objeto muda de um ângulo para o outro. O objeto é assimilado por indícios que passam a ser reinterpretados, explicitando a ligação efetiva entre o jogo de transformação e a expressão criadora" (VASCONCELOS. 1991: 138).

As pesquisas sobre criança e televisão poderiam trazer novas luzes para a compreensão da recepção televisiva infantil se atentassem para a investigação de duas hipóteses: 1)a necessidade de dominar seus medos poderá explicar a fascinação que a criança sente pelos filmes de terror, pela violência dos desenhos animados, onde a crueldade, os massacres, os tiros não deixam marcas, pois tudo volta ao normal (cf. PACHECO.1995:47); a lei da repetição, essencial às brincadeiras infantis, parece também configurar a linguagem televisiva , o que poderia de algum modo explicar a fascinação da criança por este veículo. Acreditamos que as brincadeiras apresentam-se como um indício da forma como a criança se afirma enquanto sujeito da recepção.

 

*Itania Gomes é mestre em Comunicação e Cultura e Professora dos cursos de Comunicação Social da UNEB e Facom/UFBA. ^

 


NOTAS

1. Estamos nos referindo ao Modelo das Multimediaces, desenvolvido por Gillermo OROZCO no México. ^

2. Em GOMES, Itania. A Vilania da tv: mais um mito da classe média. In: OLIVEIRA, Marinyse & BRAGA, Ana Lívia (orgs.). Janelas e Imagens, Temas de Comunicação e Cultura Contemporâneas. Salvador: Art-Contemp, 1995 (67-72) apresentamos uma análise parcial dos dados colhidos em pesquisa de campo sobre as relações da criança com a televisão e onde o problema da dispersão/atenção é analisado com mais vagar. ^

3. Ver, a esse respeito, BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. SP: Summus, 1984. 177p. ^

4. Em Além do princípio do prazer, Freud analisa a brincadeira de um garoto de um ano e meio e que consistia em, com um carretel amarrado a um cordão, jogá-lo para fora do berço e fazê-lo reaparecer seguidamente (cf. PACHECO, 1995:45). ^

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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BELÉM, Célia. "Anúncios comunicam em mão dupla" in: Folha de São Paulo. Caderno Especial de Domingo, SP, 04/06/95;

BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação (Trad.Marcus Vinicius Mazzari), SP, Summus, 1984, 117pp (Coleção Novas Buscas em Educação,V.17);

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GOMES, Itania. "A vilania da TV: mais um mito da classe média" in: OLIVEIRA, Marinyze & BRAGA, Ana Lívia. (Orgs.) Janelas e Imagens. Temas de Comunicação e Cultura Contemporâneas, Salvador, Art-Contemp,1995, 67-72;

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