DE FERNANDO A FERNANDO:
PODER E IMAGENS 1989/1994
*

Antonio Albino Canelas Rubim **

Aos olhares que nos traem e traduzem
Aos que viajaram comigo estas eleições
Aos que elegeram comigo estas viagens

 

O ano de 1994 com a vitória eleitoral de Berlusconi na Itália e de Fernando Henrique Cardoso no Brasil pode tornar-se emblemático das contemporâneas relações entre os media e a política. Desde a sua emergência e configuração, especialmente a partir de meados do século XIX, o campo dos media conforma-se como lugar habitado pelo poder. Como consequência imediata opera-se uma tensa interação desde então entre os media e a política.

No essencial esta tensão deriva do poder de publicização e silenciamento retido pelos media. Os poderes dos media, no entanto, manifestam-se através de diferenciadas modalidades. Algumas para além do âmbito das mensagens, como o engendramento de uma dimensão pública contemporânea, a alteração dos parâmetros da sociabilidade e mesmo a plasmação de um sociabilidade contemporânea. Outras inscritas no ambiente das mensagens, tais como agendamento de temas, composição de climas ou atmosferas sociais, construção de cenários e por fim produção de imagens sociais (1).

O texto em elaboração pretende olhar comparativamente as eleições presidenciais brasileiras de 1989 e 1994. Este olhar comparativo tem seu foco analítico centrado na produção das imagens dos candidatos vencedores, casualmente dois Fernandos, e busca compreender as operações e a atuação dos media na formatação da política brasileira contemporânea.

OS MEDIA E A PRODUÇÃO DE IMAGENS

Exaustivamente nomea-se o contemporâneo como mundo das imagens. A proliferante produção de imagens visuais a partir do século XIX, com base no advento da reprodutibilidade técnica, tão bem analisada por Walter Benjamin em seu clássico ensaio, certamente constitui o lastro sócio-tecnológico para a formatação desta faceta da contemporaneidade: ser habitada em todos os seus poros por imagens visuais.

A hiperexposição das imagens visuais, no entanto, parece obscurecer a apreensão da sociabilidade contemporânea como mundo de outras imagens, também viroticamente proliferantes: as imagens sociais.

Em geral, a percepção tradicional proviniente do senso comum concebe as imagens sociais como algo descartável, porque não essencial e constitutivo da atualidade; como resultante de uma manipulação, sempre pensada como intencionalmente orientada e apenas pertinente às relações públicas e ao marketing (2). Enfim, nesta concepção, talvez hegemônica, as imagens sociais não passam de mera e acessória produção, sem mais.

Acontece aqui coisa similar a determinadas formulações acerca da publicidade. Entretanto desde que Paul Sweezy e Paul Baran - em um livro sem dúvida subestimado, talvez não tão rigoroso, mas certamente instigante - sugeriram que o capitalismo monopolista governa-se predominantemente pela concorrência de marcas e não de preços, como ocorria na sua fase concorrencial; desde então parece insensato conceber a publicidade como prescindível e não constitutiva do capitalismo atual (3).

Também na compreensão das imagens sociais uma revisão se impõe. Um entendimento mais profundo das modalizações da sociabilidade permite equacionar melhor a presença das imagens sociais na atualidade. A sociabilidade contemporânea conforma-se como uma complexa mesclagem de convivência e televivência, em um sentido de "vivência" à distância. A televivência, uma nova dimensão de sociabilidade engendrada pelos media, ao propiciar um caráter planetário, instantâneo e simultâneo à vida humana, obriga os homens a habitarem esta dimensão pública ao modo de imagens sociais. A existência, enquanto imagem social, se já possível também em outros idos, agora na idade da televivência, torna-se sua modalidade "natural" e inescapável de ser.

Tal versão alternativa implica em considerar as imagens sociais como componentes constitutivos da contemporaneidade; como produção inscrita na configuração mesma da atualidade; como algo que se realiza, inclusive independente de uma intervenção orientada intencionalmente. Nas sociedades complexas pode-se sugerir uma permeação continuada e uma proximidade essencial entre a produção de imagens sociais e construção mesma de identidades (públicas) (4).

IMAGENS SOCIAIS: REQUESITOS E PROCEDIMENTOS

Na idade (dos) media, o requesito fundante para a produção de imagens sociais certamente pode ser formulado como acesso e presença continuada nos media. Habitar de modo contínuo esta dimensão pública engendrada pelos media, ser público, ou seja, ser mediático, eis o requesito primeiro.

Ser mediático na contemporaneidade, dada a hegemonia atual dos media audiovisuais, significa igualmente ser imagem visual, sempre reproduzida tecnicamente. A imagem visual aparece como suporte necessário, mas não suficiente, da imagem social, se se tem em conta indivíduos. O mesmo não acontece quando se consideram entes coletivos, como partidos, empresas, sindicatos, etc. Em tais circunstâncias a imagem social tem como suporte visual a marca que singulariza o ente e sua imagem.

Se a imagem visual funciona como suporte da imagem social, esta não mantém uma relação de identidade com aquela, conforme sugerido antes. A imagem social sempre será mais que a imagem visual. Este algo mais, díficil de nomear, pode ser dito como um conjunto de valores anexados, de qualificações agregadas a esta imagem visual materializada. Valores e qualificações, acionadas intencionalmente ou não, e que provém e se alimentam da dimensão de convivência, do(s) campo(s) social(ais) de trânsito, ambientação e tessitura, das representações e imaginários sociais.

A produção de imagens sociais retém e considera igualmente o entorno conjuntural, composto pelos temas agendados, pela atmosfera e clima existentes e, por consequência, pelos cenários construídos. Logo a produção de imagens sociais, consumada mediaticamente, negocia, consciente ou inconscientemente, em diversos instantes com uma constelação de elementos, com destaque para os media.

Cabe tornar explícito, inclusive para dirimir possíveis dúvidas que ainda persistam, que a produção de imagens sociais, em consequência da ecologia antes anotada, se realiza no âmbito de um campo de forças (Kraftfeld), metáfora recorrente de Adorno para se referir à "interação relacional de atrações e aversões que constituía a estrutura dinâmica e a transmutação de um fenômeno complexo" (5). Tal campo de forças, perpassado por múltiplas gravitações, enseja que a produção de imagens sociais inscreva-se em um lugar de embate de poderes. Portanto, em um lugar onde a política deve realizar-se contemporaneamente.

A produção de imagens sociais aparece enfim, simultaneamente, como requesito e dispositivo do movimento do político hoje. Ao produzir imagens sociais, no cerne do campo de forças que chama-se sociedade, os media consubstanciam - de maneira diferencial e mesmo desigual, porque já imersa na luta política - os contemporâneos atores que instalam-se e atuam nos cenários políticos construídos na atualidade.

A POLÍTICA NO BRASIL E A PRODUÇÃO DE IMAGENS

Antes de dizer algo sobre os Fernandos parece sensato fazer um pequeno "intermezzo" para anotar as especificidades que circunscrevem a produção de imagens sociais (políticas) em terras brasileiras.

De imediato, a intensa apartação que constitui e marca nossa sociedade fragiliza o campo político ao torná-lo também excludente e marginalizador. No país, somente no momento eleitoral, os indivíduos podem tornar-se cidadãos plenos, onde e quando, interpelados pela obrigatoriedade do voto, podem exercer em plenitude seus direitos de intervir politicamente na definição do governo da sociedade. Cotidianamente a maioria da população - ainda que permeada pela teia de entidades que disputam, pelo conflito ou pela negociação, o poder - não se colocam e se pensam neste tecido social como partícipes, antes comportam-se como meros pacientes que sofrem e percebem as operações do campo da política como algo exterior, longínquo, exercido somente por "especialistas" e atualmente invadido por agentes que se mobilizam apenas por seus interesses particulares (6).

A tendência à personalização na sociedade, assinalada por Richard Sennett, e na política, indicada por Roger-Gérard Schwartzenberg, parecem agudizar-se no Brasil ante a nossa tradição de personalização, manifesta de modo contudente no populismo que perpassa a nossa vida política (7). Tendência também potencialmente agravada pelo presidencialismo e pela eleição em dois turnos, que reforçam o traço personalístico da atividade política. A personalização reintroduz aqui a figura do "pai-grande" que, ao tudo resolver (ainda que em um plano mítico), irresponsabiliza todos, destituindo-os de uma intervenção ativa no campo político.

Ferido por tais incisões, o campo político apresenta sequelas profundas. Ao operar em plenitude apenas sazonalmente e mesmo neste momento corroído pelo sentimento de apartação e exterioridade, ele fragiliza-se e, por consequência, suas marcas atenuam-se na composição social das imagens de entes políticos. Sem dúvida, o registro dos limites daqueles componentes provenientes do campo da política torna-se indispensável para o rigoroso equacionamento da produção de imagens sociais na atualidade brasileira.

À fragilidade do campo político, acrescente-se o superdimensionamento do poder do campo dos media no Brasil, decorrente não só da ausência ou debilidade de outros circuitos culturais - por exemplo, o aparato escolar - e da pequena presença de entidades político-culturais que configurem agentes e cravem suas marcas em imagens sociais, mas também da potencialização do poder dos media em razão da autoritária concentração característica do campo dos media em nosso país. A anomia, com a inexistência de regras democráticas que governem aqui a atuação dos media, possibilita a emergência deste poder que hoje interfere arbitrariamente na política e introduz profundas marcas na tessitura e nas imagens sociais produzidas.

A persistência da apartação social, a fragilização do campo da política e o superdimensionamento do campo dos media na complexa atualidade brasileira delimitam o campo de forças onde se produzem as imagens sociais. Para além disto, instauram um fosso profundo entre as imagens sociais exigidas pela política realizada no dia a dia - compartilhadas por camadas restritas da população - e aquelas necessárias aos momentos eleitorais, obrigatoriamente amplificadas para tornarem-se comuns e frequentarem o conjunto dos indivíduos eleitores. Tal fosso possibilita a reprogramação das imagens sociais na política brasileira. Aquilo que parece mera força dos media, a capacidade de reciclar imagens, em verdade, expressa mais uma vez a irrupção profunda da apartação social existente no país.

1989: FERNANDO PRIMEIRO

Concluídas as observações preliminares, pode-se esboçar uma análise do primeiro Fernando através da angulação que informa o presente texto. A novidade e a "modernidade" de Collor transparecem com força em, pelo menos, duas dimensões políticas, ainda que persistam nele inúmeros outros traços significativos de permanência de certas tradições da política brasileira.

Com certa facilidade, Collor foi afirmado como mero fenômeno produzido pelos media. Sem mais, tal afirmativa entroniza os media como sujeitos e deprecia Collor, deslocando-o para o papel de coadjuvante, quando muito, complacente com os desígnios dos media. A ação política torna-se assim apenas concernente aos media.

Antes de ser um privilégio dos media, a produção de Collor enquanto imagem social nacional teve nele e em sua trope co-partícipes de perspicácia e de intencional intervenção política. A rigor, Collor se faz produto e produz-se através dos media. Com esta finalidade, Collor e seus companheiros da República das Alagoas recorrem a todos os dispositivos e acessórios mediáticos disponíveis: pesquisas, marketing, etc. (8). Tal intervenção combina-se certamente com os interesses dos media, que em consequência a potencializa, mas Collor trabalha uma perfomance também instruída e adequada aos media. Collor apresenta-se como jovem, galã, atleta, herói e caçador. Não por acaso a sintonia entre Collor e os media acontece antes, durante e depois das eleições de 1989. E mais, para o estreitamento de tal aliança aparece como fundamental o cenário construído pelos media. Dele, Collor se alimenta. Nele, Collor se fabrica e se faz presidente (9).

Collor aparece, portanto, como figura emblemática, como primeiro político, em um circuíto nacional, que de modo intencional percebe e opera com os media na produção de sua imagem política, adequa-se ao cenário social e torna-se um "político mediático". O fosso antes assinalado permite, por outro lado, que sua imagem possa ser reprogramada. Collor se transforma em um "outsider" da política, em um caçador de marajás.

Mas a "modernidade" de Collor conforma-se igualmente na consolidação da entrada - para efeito de raciocínio pouco importa se atabalhoada ou não - do projeto neoliberal no país e especialmente em nosso campo político, posto que o ideário neoliberal já transitava com alguma fluência em outros campos sociais, inclusive no campo dos media. Ao se propor como porta-voz do neoliberalismo tupiniquim, Collor passou a representar um projeto político no Brasil e com isto estabeleceu um certo nível de bases e apoios políticos. Por fim, também a representação dos descamisados conquistada por Collor não pode ser entendida como engano, sem mais. Collor efetivamente disse algo a estas camadas excluídas, mobilizando sentimentos profundos, como o ressentimento que, compartilhado por parte destas populações, operava como substrato do justiçamento prometido pelo caçador de marajás. Enfim, Collor faz política ao intervir na (nova) produção de sua imagem e ao representar projetos e interesses presentes na sociedade brasileira. Ao fazer política, ele não pode ser compreendido como joguete dos media, sem mais.

O equacionamento da composição entre o político e o mediático em Collor, entretanto, mantém uma tensão permanente. De uma conjunção inicial adequada aos intuitos de Collor, paulatinamente, ela transfigura-se em aberto conflito. Como hipótese, pode-se propor que o mediático, antes viabilizador do político, em sequência colabora na destruição do político. O fascínio e a sedução dos media, o narcisismo e os traços de personalidade de Collor e a subestimação do funcionamento próprio do campo da política possibilitam uma autonomização do componente mediático. A superexposição do presidente aos media, sem o necessário suporte e legitimidade provinientes de um campo outro (da política) e externos portanto, aos media, deixa Collor refém da lógica dos media. Autofágica, ela devora ciclicamente seus olimpianos.

O desequilíbrio dos componentes político-mediáticos somados aos problemas e impasses derivados da tentativa de monopolizar os ganhos ilegítimos provinientes do velho expediente de privatização do Estado parecem sugestivos para compreender porque os media, em especial alguns deles, voltam-se contra Collor como que traídos. Destruir a criatura que eles acreditam, em sua enorme pretensão, ter criado parece ser o outro lado da mesma moeda (10).

INTERVALO PARA UM OUTRO FERNANDO

Interpelar um outro Fernando pode ajudar o itinerário pretendido neste desvendar dos contemporâneos enlaces existentes entre a política e os media. O outro Fernando, convocado a apresentar-se no texto, chama-se Fernando José. Radialista responsável pelo popular programa de rádio e televisão "Balanço Geral", aquele que "mata a cobra e mostra o pau", Fernando José, como muitos outros radialistas no Brasil, elegeu-se prefeito de Salvador em 1988, pelo PMDB.

As conexões entre o campo dos media e o campo da política encontram-se concernidas no caráter público, hoje exigido pelo funcionamento pleno de ambos os campos sociais. Obviamente que o campo da política, mesmo instalado em situação de democracia, mantém significativas zonas de intransparência, posto que o funcionamento da política supõe segredos, aliás um dos lugares habitados pelo poder. Mas na atualidade parece impossível pensar a realização da política sem seus momentos significativos de disputa pública e construção/desconstrução pública de poder no campo de forças que intitula-se sociedade.

As interfaces entre os media e a política não se detém no caráter público visitado por estes campos. Ambos buscam parte significativa de sua legitimidade através da noção (polêmica e polissêmica) de "opinião pública" (11). Desde a modernidade clássica, o campo da política deriva a legitimidade do governo da sociedade de sua representação dos interesses sociais expressos sob a modalidade de opinião pública. Assim a legitimidade do político está baseada em sua adequada representação da opinião pública.

Também os media, cuja legitimidade maior ancora-se na promessa de tornar visível o social, correlacionam, em seu discurso legitimador, tal visibilidade à representação daquilo que está inscrito na opinião pública. Os media, neste sentido, igualmente se dizem representantes e não raro se pretendem como puros porta-vozes da opinião pública. Aparatos sócio-tecnológicos de mediação ativa - por conseguinte, verdadeiros produtores de discursos acerca do social -, neste procedimento legitimador auto-referenciado, pensam-se como simples intermediários dos discursos elaborados pela opinião pública.

O reivindicado caráter de representante da opinião pública tem na política um mecanismo específico de sagração: o voto. Nas eleições a população escolhe e dá um mandato aqueles que transformam-se, em princípio, em seus representantes. Quando o campo da política não abarca toda a população de modo pleno e satisfatório, deixando-a orfã de representação - como acontece no Brasil, devido as ressonâncias políticas da apartação social antes anotadas - ela encontra-se amplamente disponível para se representar através de outros dispositivos, que canalizem, real ou imaginariamente, seus anseios e demandas. Os media apresentam-se como um destes mecanismos de representação. Não por acaso, tantos marginalizados têm escolhido como representantes políticos seus antigos "representantes" mediáticos. Isto é, "porta-vozes" rádio-televisivos.

Fernando José emerge apenas como um exemplo dentre centenas possíveis (12). Sua visitação aqui não decorre propriamente de seu processo particular de produção de imagem, mas de seu papel ilustrativo da constituição de políticos em uma sociedade mediática e do fácil tráfego possível no Brasil de personalidades públicas do campo dos media para o campo da política. O trânsito facilitado, no entanto, não assegura uma permanência, sem mais, no novo campo. Ao não realizar concomitantemente a transição de sua representação de origem mediática para uma outra alicerçada nas operações e valores próprios do campo político, Fernando José, após os quatro anos como Prefeito, foi pura e simplesmente "expelido" do campo político, posto que havia destruído todo seu poder de ser reconhecido socialmente como representante de qualquer parcela da sociedade.

FERNANDO SEGUNDO

Por contraposição ao primeiro, Fernando Henrique Cardoso tem sido exposto e afirmado como político forjado em procedimentos próprios do campo político. Seu passado como cientista social, que pensa o Brasil e o mundo; sua história como intelectual crítico que se exila e que posteriormente retorna ao país para participar da luta democrática contra a ditadura; seu ingresso nas lides partidárias da oposição e enfim, suas candidaturas e sua assunção/ascensão ao senado, onde era suplente de Franco Montoro: todo este itinerário parece reafirmar uma linhagem específica - talvez pura - de realização política que dispensaria dispositivos outros, tais como aqueles de caráter mediático, inclusive os referentes à produção de imagens sociais. Como político com P maiúsculo, FHC - digo Fernando Henrique, sua atual nomeação, dentro das técnicas de marketing eleitoral - não estaria disponível para tais dispositivos, aliás muitas vezes pensados como meros acessórios.

Mesmo uma rápida olhada para a recente história política do novo presidente, facilmente desmente esta pretendida pureza dos mecamismos acionados na produção de sua imagem social publicizada, em especial, daquela imagem ampliada exigida para seu salto em busca da presidência. A entrada de FHC no Ministério da Fazenda se o colocava em um "locus" privilegiado de poder para implementar políticas, simultaneamente o coloca em cena, em exposição continuada aos media. Guindado ao Ministério, os media, na sua desenfreada busca do "anti-Lula", podiam "legitimamente" torná-lo visível e tecê-lo, enquanto imagem social remetida às "massas" populares.

Fernando Henrique, ainda FHC, foi superexposto enquanto ministro, como autor do plano, sintomaticamente denominado pelos media de FHC e, em especial, quando parecia debruçar-se sobre o dilema de sua candidatura. Os media não lhe pouparam espaços e tempos, como sempre acontece com afilhados seus, políticos ou não. Nào só espaços e tempos, os media foram pródigos em simpatia, paciência e complacência. A disparada da inflação e o decréscimo do salário mínino, acontecidos em sua gestão ministerial; a lenta urdidura de um plano em um situação que se mostrava como emergencial; a retirada de recursos das áreas da saúde e educação; os adiamentos do envio do orçamento federal ao Congresso ou ainda seus anteriores "namoros" com o primeiro Fernando: tudo deixou de ser pautado, como exigiria o respeito a uma dinâmica efetivamente jornalística. Só excepcionalmente e talvez por descuido alguma linha crítica mais contundente foi arremessada contra FHC.

Já como candidato, FHC tornou-se Fernando Henrique. Para superar o desconhecimento de uma parcela significativa do eleitorado - só neste momento "partícipe" mais atento do processo político - , Fernando Henrique cercou-se de uma poderosa e milionária equipe de marketing político e eleitoral, inclusive com assessoria de especialistas estrangeiros, conforme denúncias na imprensa, como qualquer político faria em uma sociedade mediática. Simultaneamente buscou acordos políticos, com destaque para sua aliança com o PFL, que, para além do simples acúmulo de força política, o tornassem de antemão candidato quase único dos empresários - viabilizando-se política e financeiramente - e, mais que nunca, o candidato agora (con)sagrado dos (grandes) media no país. Colocar-se em um patamar que possibilitasse, de imediato, a disputa com Lula, fugindo do fosso comum dos outros candidatos, eis a estratégia intentada.

Mas a produção da imagem social de Fernando Henrique requeria ainda algumas operações político-mediáticas, em especial a principal delas. Talvez o único elemento que funcionasse como imponderável em uma eleição onde o candidato Luiz Inácio Lula da Silva parecia despontar como virtualmente eleito.

Obviamente fala-se aqui do Plano Real. Se o plano foi urdido como intervenção inscrita no campo da política, em especial em uma dimensão político-eleitoral, sua eficácia política dependeu só em parte de algum tipo de resultado mais consistente. Estabilizar a moeda e baixar a inflação, ainda que momentaneamente, foram sem dúvida componentes deste "sucesso", mas sem a atuação afinada dos media, o plano de modo algum seria tão eficaz politicamente.

O plano a rigor não existe socialmente sem sua publicização. Em uma sociedade mediática como a nossa, a publicização em razoável medida tornou-se já tarefa do campo dos media, que tende a monopolizá-la de modo crescente na contemporaneidade. Sem dúvida, persistem também na sociedade mediática acontecimentos que, dadas as sua características constitutivas, comportam e realizam acentuada publicização por uma rede específica de capilaridade que se irradia pelos poros do social. A moeda, enquanto equivalente universal, pelo mero ato de circular socialmente, garante determinada publicização do plano. Uma nova moeda assinada por Fernando Henrique, mais ainda, carrega o plano e o candidato por toda sociabilidade brasileira, a exemplo do que fez outrora Luiz XIV (13).

À publicização imanente ao meio moeda agrega-se a milionária campanha publicitária do Governo e principalmente o côro uníssono dos media em favor do plano. O Real vence por antecipação, sem necessitar de nenhuma comprovação respaldada em um itinerário histórico. Os media, ao invés de noticiar e discutir a plausibilidade das medidas (provisórias), de antemão aprovam e difundem o Real através de artíficios os mais variados. Os espetáculos esportivos, em especial do time brasileiro na Copa do Mundo; as telenovelas - como "Pátria Minha", novela eleitoral da Globo - e até os noticiários estão cheios de (simpatia pelo) Real. Uma orquestra afinada repele facilmente algum desafinado descontente. O Brasil em uma corrente pra frente torna-se Real.

O acionamento dos media não se limita à aprovação por antecedência do plano. A conjunção de astros - vitória da seleção, postura "positiva" de telenovelas frente à ação política e o querido e desconfiado "otimismo" ensejado pelo plano - redefinem, em complexo jogo de intencionalidades e acasos, a constelação de temas agendados e atmosferas , por conseguinte, constroem um outro cenário eleitoral. De um cenário onde predominam os temas sociais corrosivos e "negativos", como a fome, o desemprego, a corrupção, o salário, etc, transita-se para um novo cenário, onde a moeda consegue subor(di)nar todos aqueles temas, colocando-os como subordinados, dependentes e deslocando-os para um patamar secundário. A predisposição crítica, "negativa", cede lugar a uma atitude "positiva", ainda que sem um entusiasmo que mobilize, como aconteceu em tempos do cruzado. O Real não teve fiscais. As pessoas acreditaram no Real, mas sem qualquer ânimo mobilizador, letargicamente.

Os estoques imaginários a serem requisitados para a produção da imagem social ampliada, agora exigida de Fernando Henrique, tinham se engendrado. Tratava-se, em primeiríssimo lugar e sempre, de amalgamar Fernando Henrique e o ("sucesso" do) Plano Real, ambos antes FHC, criador e criatura. De adequar o discurso antes professoral de Fernando Henrique à "mensagem" e ao "otimismo" do Real. O futuro no presente com estabilidade e segurança passou a ser fórmula de campanha.

Nada melhor que reivindicar uma continuidade de gesto e postura, antes que de projeto e de ideário, com um JK sem inflação, sem conflitos com o FMI e com preocupações com o social. O JK do futuro em cinco anos. O JK otimista de um novo Brasil. Enfim, o JK "estadista do desenvolvimento e da democracia" (14). Mas as remissões ao imaginário político não podiam se circunscrever à Juscelino. Ao recorrer à herança imaginária da conciliação e de um pacto nacional, Fernando Henrique incorporou Tancredo Neves, encarnou seus mitos diletos e prismaticamente justificou sua santa aliança com o PFL de ACM. A estabilidade da mudança foi acionada imaginariamente contra a pretensa mudança com risco.

Realizada esta trajetória pode-se com alguma tranquilidade afirmar Fernando Henrique como um produto mediático. Como uma construção onde estão acionados componentes específicos extraídos do campo da política e outros elementos especializados oriundos do campo dos media. O aprendizado e a superioridade sobre o primeiro Fernando ficam nítidos: agora o político e o mediático parecem melhor resolvidos na produção de Fernando Henrique enquanto imagem social que habita a sociabilidade contemporânea brasileira.

1989 E 1994: PODER, MEDIA E POLÍTICA

O itinerário percorrido busca demarcar a novidade da presença mediática na política brasileira recente e identificar os dispositivos e artefatos acionados e as tensões constitutivas da interação política-media em sociedades contemporâneas. Com este fim, faz Fernando Collor e Fernando Henrique transitarem nestas páginas para reafirmar, em ambos, falados por vezes de modo tão desigual, esta identidade de políticos mediáticos.

Uma outra identidade, não mais circunscrita à zona de produção de imagens sociais, deve emergir da análise realizada. Nas duas eleições, um olhar atento vai perceber deslocamentos de poder significativos que interferem no processo eleitoral propiciados pelos media. A combinatória eleições-media tem quase que automaticamente induzido o olhar a se deter embevecido na propaganda eleitoral gratuíta. Os deslocamentos de poder parecem sugerir que o poder transita e se instala em outros espaços mediáticos, por vezes inusitados.

Ao estudar as eleições de 1989, Venício Lima propôs a hipótese de uma "vitória antecipada" de Collor através da construção de cenário e produção de imagem adequadas, realizados antes mesmo da vigência do horário eleitoral gratuíto (15). Procedimento semelhante aconteceu na eleição de Antonio Carlos Magalhães para governador da Bahia, em 1990. Alcançado um patamar confortável caberia então administrá-lo no processo eleitoral para assegurar a vitória. Deste modo, os materiais mais apropriados analiticamente para estudar o funcionamento do poder em seu perfil mediático-eleitoral não se resumiriam ao horário eleitoral. Talvez sua luminosidade ofuscante sirva mais uma vez para não deixar ver o poder que se realiza em outros programas políticos, em noticiários jornalísticos ou não e até em espaços ficcionais e de lazer aparentemente distantes da realidade e da política.

Nas eleições de 1994 novamente - e talvez de modo ainda mais acentuado - a realização de poder se deslocou do horário de propaganda gratuíta. A eleição mediática parece não ter encontrado neste espaço seu lugar de desenvolvimento mais pleno. Primeiro, porque ele foi fragilizado por uma legislação eleitoral interessada, obscura e equivocada, cuja análise foi esboçada em outro texto (16). Tal legislação levou à subordinação, a modo de refém, do espaço mediático sob controle do campo da política ao espaço (político) operado pelos media. Segundo, porque a atividade eleitoral se realizou, anterior e simultaneamente ao horário gratuíto, construindo cenários e imagens, através de assuntos (apenas) formalmente não eleitorais.

Assim os media puderam se dar o luxo de ter no período eleitoral um noticiário até "igualitário", procedimento, sem dúvida, distinto de 1989. Ricupero, em suas reflexões parabólicas, enfatizou de modo cristalino este aspecto: ele, materializando corporeamente o Real, foi o verdadeiro cabo eleitoral de 1994. Ainda mais com a vantagem, aliás reconhecida por ele, de não criar problemas ou infringir a legislação eleitoral. Nos media e na sociedade, enfim, o que se observou foi um deslocamento acentuado no cenário - temas, atmosfera, atores em disputa - com a configuração de um novo campo de forças.

O resultado mais contudente de todo este operar político-eleitoral dos media - que certamente não explicam todos os desdobramentos e definições do processo eleitoral brasileiro de 1994 - apareceu sob a modalidade de uma ausência de discussão acerca das principais visões e divergências em disputa político-eleitoral, ou seja, como despolitização do embate eleitoral. O Real, antes de aflorar e fazer emergir a realidade na política, funcionou obscurecendo o conflito e os projetos políticos presentes no jogo eleitoral de 1994. Em 1989, a história foi outra: a polarização de projetos, em especial, no segundo turno assegurou e realizou uma politização nas eleições e no social.

* Texto apresentado em versão preliminar (e interrogativa) no seminário POLÍTICA, CULTURA E MÍDIA, na mesa redonda "Mídia e eleições no Brasil:1989 e 1994". Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, 15 de setembro de 1994. ^

** Professor do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atualmente realiza pesquisa intitulada "Mídia e eleições de 1994", com o apoio do CNPq e da FAPEX. ^


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Ver: RUBIM, Antonio Albino Canelas. "Mídia e política: transmissões de poder". In: MATOS, Heloiza (org.) Mídia,eleições e democracia. São Paulo, Scritta, 1994 p.31-52. ^

(2) Sobre a noção de intencionalidade consultar: POLONIATO, Alicia. "Entre la voluntad de dominio y las formas de conciencia. Los medios de comunicación y la noción de intencionalidad". In: PICCINI, Mabel (org.) La imagen del tejedor. México, Felafacs/Gustavo Gili, 1987. p.69-98. ^

(3) BARAN, Paul e SWEEZY, Paul. Capitalismo monopolista. Rio de Janeiro, Zahar, 1974. ^

(4) Ver, por exemplo: PENNA, Maura. O que faz ser nordestino. São Paulo, Cortez, 1992. ^

(5) JAY, Martin. As idéias de Adorno. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1988 p.16. ^

(6) BOURDIEU, Pierre. "A representação política. Elementos para uma teoria do campo político". In: ___. O poder simbólico. Rio de Janeiro/Lisboa, Bertrand/Difel, 1989 p.163-207. ^

(7) SENNETT, Richard. O declínio do homem público. São Paulo, Companhia das Letras, 1988 e SCHWARTZENBERG, Roger-Gérard. O estado espetáculo. São Paulo, Difel, 1978. ^

(8) BRAGA, Teodomiro. "Como se fez um presidente". In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1989. Caderno especial p.1.^

(9) Sobre a relação media e eleição de Collor, consultar: ALBUQUERQUE, Afonso de. "Querem roubar as cores da bandeira nacional! Collor e o uso político dos símbolos nacionais no horário gratuito de propaganda eleitoral". In: FAUSTO NETO, Antonio; PORTO, Sérgio e BRAGA, José Luiz (orgs.) Brasil. Comunicação, cultura & política. Rio de Janeiro, Diadorim, 1994. p.100-116; AGUIAR, Carly de. "Imagens da política no discurso das elites sobre as eleições de 1989". Trabalho apresentado na III Reunião Anual da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação - COMPóS, Campinas/Unicamp, 1994; FAUSTO NETO, Antonio. "O presidente na televisão". In: Comunicação & Política. São Paulo, (11):7-27, abr./jun. 1990; FIGUEREDO, Ney Lima e FIGUEIREDO Jr.,José Rubens de Lima. Como ganhar uma eleição. São Paulo, Cultura Editores Associados, 1990; LIMA, Venício Artur de. "Televisão e política". In: Comunicação & Política. São Paulo, (11):29-54,abr./jun. 1990; NAVARRO, Venícius do Valle. A cena persuasiva da propaganda política. João Pessoa, UFPB, 1990; PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. "Política e cultura no Brasil contemporâneo". In: Papéis Avulsos. Rio de Janeiro, CIEC, (31):1-19, 1991; RUBIM, Antonio Albino Canelas. "Comunicação, espaço público e eleições presidenciais". In: Comunicação & Política. São Paulo, 9(2-3-4): 7-23, 1989; SILVA, Carlos Eduardo Lins da. "Indústria da comunicação: personagem principal das eleições brasileiras de 1989". In: Intercom. Revista Brasileira de Comunicação. São Paulo, (62/63):121-127,1990; SINGER, André. Ideologia e voto no segundo turno da eleição presidencial. São Paulo, FFLCH-USP, 1993 (dissertação de mestrado); WEBER, Maria Helena. "Pedagogia de despolitização e desqualificação da política brasileira". In: Comunicação & Política. São Paulo, (11):64-83, 1990.^

(10) Acerca do estudo dos media no processo de impeachment de Collor ver: ALBUQUERQUE, Afonso de. "O espetáculo da crise: os media e o processo de impeachment contra Collor". In: PERREIRA, Carlos Alberto Messeder e FAUSTO NETO, Antonio (orgs.) Comunicação e Cultura Contemporâneas. Rio de Janeiro, COMPÓS/Notrya, 1993 p.144-147; CASTRO, Maria Ceres Pimenta S. "Deveras, uma fabulção do real?" In: PEREIRA, C. A. M. e FAUSTO NETO, A. ob. cit. p.129-143; FAUSTO NETO, Antonio. "Vozes do impeachment". In: MATOS, Heloiza (org.) ob. cit. p. 159-189; FAUSTO NETO, Antonio. "A setença dos media. O discurso antecipatório do impeachment de Collor". In: FAUSTO NETO, A.; PORTO, S. E BRAGA, J. L.(orgs.) ob. cit. p.328-355; RUBIM, Antonio Albino Canelas. "política em tempos de media: impressões de crises". In: PEREIRA, C.A.M. e FAUSTO NETO, A. (orgs.) ob. cit. p.148-168; WEBER, Maria Helena. "A cara pintada da política". In: PEREIRA, C. A. M. e FAUSTO NETO, A. (orgs.) ob. cit. p.169-182.^

(11) Consultar: COHN, Gabriel. Sociologia da comunicação:Teoria e ideologia. São Paulo, Pioneira, 1973 e BOURDIEU, Pierre. "A opinião pública não existe". In: THIOLLENT, Michel. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. S.P., Polis, 1980. p.137-151.^

(12) PINTO, Céli. "O clientelismo eletrônico: a eficácia de um programa popular de rádio". In: Humanas. Porto Alegre, 16(1):117-137, jan./jun. 1993.^

(13) APOSTOLIDÈS, Jean-Marie. O rei-máquina. Rio de Janeiro/Brasília, José Olympio/Edunb, 1993.^

(14) GOMES, Ciro. "Juscelino, estadista do desenvolvimento e da democracia". In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1994.^

(15) LIMA, Venício Artur de. ob. cit. p.32.^

(16) RUBIM, Antonio Albino Canelas. "Media, política e eleições brasileiras de 1989 e 1994". Texto apresentado no III Reunião Anual da COMPÓS. Campinas, Unicamp, 1994.^