TV INTERATIVA

 

"A velha televisão morreu e uma nova televisão acaba de nascer", anuncia Hoineff (1). De fato, o antigo modelo de TV baseada na programação das grandes redes começa a dividir o espaço com a televisão "à la carte". A TV genérica já não reina absoluta. Agora o espectador também tem a sua disposição a TV temática, que modifica os hábitos do espectador e instala um novo conceito de programação.

A TV que está surgindo não deverá se parecer em nada com as televisões convencionais. O fenômeno das grandes redes que marcaram toda a história do veículo está dando lugar a uma proliferação de canais segmentados. A tendência à personalização — característica forte das publicações eletrônicas — parece também estar invadindo as produções televisivas. Hoineff aposta na segmentação e classifica a TV paga como um divisor de águas. Citando W. Russell Neuman, ele explica que a televisão está obedecendo à teoria da evolução da mídia, que conduz inevitavelmente à especialização:

"Quando um novo meio é introduzido, ele é adotado inicialmente por uma elite educada que tem o poder intelectual e a capacidade econômica para assimilá-lo antes de qualquer outra classe. Na medida em que o preço do novo meio cai e ele se torna mais amplamente aceito, ele progressivamente aumenta o apelo de massa e se torna dominado pela economia da audiência de massa. Mas quando um meio novo competitivo aflora, o meio antigo deve especializar-se e tirar vantagem do seu apelo tecnológico único para sobreviver" (2).

A segmentação e a interatividade provocam uma verdadeira revolução no modo de assistir televisão, alterando a relação do público com o aparelho de TV. Na nova TV temática interagir não significa simplesmente decidir entre dois finais para uma história, como no Você Decide da Rede Globo, ou a escolha de um dos três filmes selecionados pelo Intercine, por exemplo. Com a TV por assinatura, o telespectador pela primeira vez terá a chance de optar entre uma infinidade de canais e fazer sua própria programação.

No entanto, em meio às novidades tecnológicas, uma pergunta fica no ar: será que depois de um dia cansativo de trabalho o telespectador vai mesmo querer interagir? Será que ele não prefere relaxar e ter uma atitude passiva diante da programação? Hoineff explica que o público não será obrigado a escolher sua programação, podendo continuar passivo diante do aparelho de TV (3). Adepto da mesma opinião, Nicholas Negroponte acredita que o espectador "pode querer simplesmente sentar e relaxar ou, então, agir ativamente. Mas o fundamental é que agora ele pode escolher. Uma opção que não existia na antiga TV" (4).

Os defensores da TV interativa argumentam que a popularização do controle remoto, introduzindo o zapping (5), e o sucesso da Internet demonstram o interesse do telespectador em interagir. Hoineff afirma que "a relação que o usuário estabeleceu com a Internet em particular e com seu microcomputador em geral derruba a resistência em se acreditar que o espectador não queira deixar de ter uma atitude meramente passiva diante de seu aparelho de televisão"(6).

André Lemos explica que a diferença entre a Internet e a TV tradicional reside no grau e nos tipos de interatividade. "Enquanto uma criança na frente da TV pode, no máximo, regular a televisão e zappear, na Internet nada acontece se não houver ação", diz (7). Apesar das diferenças, tanto o zapping quanto a leitura não linear das homepages evidenciam que o telespectador do futuro não deverá assistir uma seqüência de programas do início ao fim. Esse certamente será um dos maiores desafios da nova televisão.

Com a nova televisão o primeiro vínculo que deve ser rompido entre telespectador e aparelho é o da tradicional fidelidade às emissoras. A partir da popularização da TV por assinatura será impossível memorizar a organização e a seqüência da programação tal como fazemos ainda hoje. Consultar um jornal qualquer para se informar sobre os horários dos programas — hábito comum no ambiente de TV aberta — será impensável daqui alguns anos.

Inicialmente, a programação das TVs por assinatura eram divulgadas apenas em revistas especiais distribuídas pelas operadoras. No entanto, com o crescimento espantoso do número de canais, essas publicações também não darão conta do volume de informações.

É possível observar ainda hoje que grande parte dos assinantes acaba desorientada diante dos "500 canais" disponíveis. (Veja comentário de José Simão, da equipe de articulistas do jornal Folha de S. Paulo) O resultado é perda de tempo e ansiedade, que se refletem na procura frenética pela programação desejada. Esse é um desafio que muitas empresas estão tentando superar com a criação de métodos eletrônicos inovadores de gerenciamento da programação. O objetivo é facilitar o acesso aos programas desejados, pois a multiplicação de canais também pode provocar um efeito contrário: o afastamento do telespectador.

 

Notas de referência:

(1) HOINEFF, Nelson. " A Nova Televisão: desmassificação e o impasse das grandes redes". Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1996, p.15

(2) NEUMAN, Russel. "The future of mass audience" Cambridge University Press, 1993. (Apud: HOINEFF, Nelson. Op.cit., p.67

(3) HOINEFF, Nelson. Op.cit., p.169

(4) NEGROPONTE, Nicholas. Entrevista à Revista SuperInteressante, nº11, novembro/1995, p. 69

(5) Sobre zapping ver MACHADO, Arlindo "Máquina e Imaginário: o Desafio das Poéticas Tecnológicas". São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1996, p.143 à 165

(6) HOINEFF, Nelson. Op.cit., p. 157

(7) LEMOS, André. Cibercultura - 09/10/97