INTERATIVIDADE
"Hoje tudo se vende como interativo; da publicidade aos fornos de microondas", afirma André Lemos (1). Apesar da gradativa banalização desse termo, que se tornou uma espécie de garantia de sucesso de vendas, a questão da interatividade não pode ser negligenciada na configuração tecnológica estabelecida pelos mídias digitais. Em que medida essa nova modalidade de interação difere da propiciada pelos meios de comunicações analógicos e da que vivenciamos cotidianamente na comunicação interpessoal?
"La interatividad (...) es una peculiaridad de algunos tipos de sistemas informáticos que permiten acciones recíprocas de modo dialógico con otros usuarios o en tiempo real con aparatos ", explica Vattini com base na definição oficial francesa (2).
A partir dessa definição, podemos distinguir duas formas possíveis de interação. Uma que podemos denominar de interação homem-máquina, a exemplo do que ocorre quando utilizamos um editor de texto, e outra que iremos chamar de interação homem-homem, como é o caso dos bate-papos via Internet. Mário Guimarães (3) ainda considera uma terceira possibilidade, classificada por ele como interação máquina-máquina, que teria como expressões as máquinas de indexação e as ferramentas de busca automática.
André Lemos (4) situa a noção de interatividade em três níveis: uma interatividade social, que marcaria de um modo geral nossa relação com o mundo e toda vida em sociedade; uma interatividade técnica do tipo "analógico-eletro-mecânica", que experimentamos ao dirigir um automóvel ou mesmo ao girar a maçaneta da porta; e outra do tipo "eletrônico-digital", que seria ao mesmo tempo técnica e social. É esta última que nos interessa particularmente.
Algumas características vão marcar a interatividade entre os usuários e os mídias digitais:
1) Feedback imediato, ou seja, cada ação do usuário corresponde a uma reação praticamente simultânea da máquina.
2) Os sistemas informatizados são concebidos de modo a prever o número mais alto possível de perguntas e as múltiplas combinações de respostas para que o usuário tenha a impressão de estar interagindo de forma análoga ao diálogo interpessoal e não perceba que a interação se dá dentro de um número limitado de possibilidades oferecidas pelo equipamento.
3) Capacidade de interagir de forma individualizada, em oposição aos meios massivos tradicionais.
4) Possibilidade de manipulação do conteúdo da informação.
Ao permitir a comunicação entre os diversos usuários, a exemplo das trocas de e-mails, IRCs e chats na Internet, as novas tecnologias também possibilitam uma interação social. Do mesmo modo que o telefone, o computador pode ser considerado uma ferramenta convivial no sentido atribuído por Ilich (5).
Veja texto de Arlindo Machado - "Alcance e Limites da Cultura da Interatividade".
Notas de referência:
(1) LEMOS, André. "Anjos interativos e retribalização do mundo: sobre interatividade e interfaces digitais" - http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/interac.html
(2) VITTADINI, Nicoletta. "Comunicar con los nuevos media" In: BETTETINI, Gianfranco. COLOMBO, Fausto. "Las Nuevas tecnologías de la comunicación". Tradução de Juan Carlos Gentile Vitale. Barcelona: Editora Paidós, 1995.
(3) GUIMARÃES, Mário José Lopes. Lista de discussão sobre Cibercultura. Para se inscrever, mandar e-mail para listproc@ufba.br e escrever no espaço reservado para o texto subscribe cibercultura "seu nome".
(4) LEMOS, André. Op. Cit.
(5) ILLICH, I. "La Convivialitté" Paris: Seuil, 1973. p 45 Apud LEMOS, André. Op. Cit.