O FUTURO DO LIVRO NA ERA DIGITAL

 

Muito tem se discutido sobre a permanência e a funcionalidade do livro em meio a proliferação dos veículos eletrônicos e das tecnologias multimidiáticas. Resta saber, no entanto, à que tipo de livro estão se referindo. Num futuro próximo talvez realmente não haja mais lugar para esse dispositivo no formato ao qual estamos habituados, mas ao que tudo indica ele sobreviverá.

O que costumamos chamar de livro não é senão o modelo do códice cristão. Os manuscritos eram normalmente escritos em rolos de pergaminho e passaram a ser organizados no formato de códice, páginas dobradas e costuradas juntas em um dos lados. Arlindo Machado comenta que esse padrão foi adotado pelos cristãos para diferenciarem as escrituras sagradas da literatura pagã. "A Bíblia de Gutenberg, sendo um livro cristão, segue o modelo do códice. Em parte porque o surgimento do livro impresso está associado a um debate religioso e em parte também porque o livro cristão acabou por se revelar um formato portátil, mais compacto e mais prático do que os rolos de pergaminho" (1).

Embora em nossa cultura essa noção esteja tão cristalizada não podemos confundir o conceito de livro com o tipo de interface específica que se consolidou com a impressão tipográfica. Seja em madeira, argila, papiro, papel ou na tela do computador, não importa é livro do mesmo jeito.

Arlindo Machado prefere optar por uma acepção mais ampla, definindo-o como "todo e qualquer dispositivo através do qual uma civilização grava, fixa, memoriza para si e para a posteridade o conjunto de seus conhecimentos, de suas descobertas, de seus sistemas de crenças e os vôos de sua imaginação" (2). Essa definição transcende a própria idéia de registro escrito. As gravuras pré-históricas gravadas nas paredes das cavernas podem ser consideradas livros? Poderíamos então falar de pinturas ou filmes como livros? E por que não "homens-livros"? "Quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações?", generaliza Ítalo Calvino (3).

Importantes pensadores contemporâneos foram essencialmente orais. Arlindo Machado cita o exemplo de intelectuais como Saussure e Lacan, cuja obra resume-se basicamente à compilações das anotações de seus alunos em sala de aula, já que pouquíssimos escritos foram deixados por eles. Segundo Machado, o modo de produção do livro era certamente muito lento para acompanhar o pensamento de homens "tão férteis". Esse autor vai ainda mais longe em suas especulações: "É possível que o pensamento desses mestres resistisse ao controle de qualidade da escrita seqüencial, com sua lógica de inferências demasiado simplista, e se adequasse melhor a uma forma de registro não-linear, de que o arquivo de anotações era a única opção disponível em suas épocas" (4).

McLuhan, em seu conhecido livro "Os meios de comunicação como extensões do homem", já chamava atenção para os princípios da uniformidade, da continuidade e da linearidade característicos da impressão tipográfica, em oposição ao "mundo da estrutura e da configuração" introduzido pela onda elétrica (5). Na era digital é justamente esse paradigma seqüencial e linear do livro impresso que está entrando em crise e não o livro propriamente dito.

Os meios informatizados baseados em sistemas de hipertextos e na utilização de recursos audiovisuais, possibilitados pela tecnologia multimídia, serão os sucessores mais prováveis do livro impresso. Uma série de fatores nos conduz à tal afirmação. Em primeiro lugar, o custo de produção. "Enquanto um livro de 200 páginas (sem ilustrações coloridas) custa cerca de US$ 1, 50 (preço de capa) para uma editora, o custo de um CD-ROM é o mesmo; a diferença está que neste último você pode colocar milhares e milhares de páginas (até 200.000), vídeos, enfim, tudo o que já vimos e, ainda, de forma interativa", afirma Sérgio Bairon (6).

Tendo em vista o ritmo exponencial em que a informação é produzida, tudo nos leva a acreditar que se chegará a um limite de saturação, e, conseqüentemente, não haverá até mesmo espaço físico para tanto material impresso. Parece exagerado, mas não temos a dimensão real do que isso representa. "Nos últimos trinta anos, produziu-se um volume de informações novas maior do que nos cinco mil anos precedentes. Cerca de mil livros são publicados no mundo por dia e o total do conhecimento impresso duplica a cada oito anos", afirma Peter Large (7). As estimativas são impressionantes. Segundo Wilbur Schramm e William Porter as maiores bibliotecas do mundo estão duplicando de tamanho a cada 14 anos, a uma taxa de 14.000 por cento a cada século. "No início dos anos 1300, a Biblioteca da Sorbonne, em Paris, continha 1.228 livros e era considerada a maior da Europa. Hoje, existem várias bibliotecas no mundo com um acervo bem superior a 8 milhões de livros cada uma" (8). Dentro de dez anos, fazer uma pesquisa em um fichário de biblioteca desses que conhecemos hoje será algo inimaginável. "Estamos nos aproximando perigosamente da biblioteca-monstro imaginada por Jorge Luis Borges", sentencia Machado (9).

Para não sermos esmagados pelo gigante da informação, a solução está, para usar uma expressão do mestre digital Nicholas Negroponte, na transformação dos átomos em bits. As mudanças já estão em andamento. Muitos clássicos da literatura podem ser encontrados em versões em CD-ROM ou na Internet (visite o site do Projeto Gutenberg) e várias bibliotecas estão tendo seus acervos digitalizados. Mas as transformações não param por aí. Não se trata apenas de resolver o problema do armazenamento de dados. Alterações substanciais também devem ocorrer nos mecanismos de processamento. Com o desenvolvimento de ferramentas de buscas automáticas cada vez mais eficientes, a exemplo das que já existem na Internet, procurar determinada informação não será uma tarefa tão difícil como achar agulha em palheiro.

O hipertexto promete ser o grande protagonista das transformações em curso. Textos com começo, meio e fim, provavelmente, serão um capítulo encerrado na história do livro. A não-linearidade será o princípio de uma nova modalidade de leitura, recentemente batizada de navegação. O leitor escolhe seu próprio rumo nesse novo horizonte onde não há ponto de partida nem porto de chegada.

A Enciclopédia foi o primeiro tipo de livro a privilegiar esse tipo de estruturação reticular. "Tanto a ordem alfabética das entradas, quanto os índices de assuntos e as palavras-chave que remetem a outras partes da obra dão um sentido inteiramente novo ao livro", afirma Machado (10). Duas características vão diferenciar o hipertexto informatizado: a velocidade, já que a passagem de um ponto a outro do texto ocorre automaticamente ao clique do mouse, e a perda da referência espacial e sensoriomotora. Na tela, ao contrário do que acontece quando seguramos um volume nas mãos, "temos acesso direto a uma pequena superfície vinda de outro espaço, como que suspensa entre dois mundos, sobre a qual é difícil projetar-se", explica Pierre Lévy (11).

Ítalo Calvino em suas propostas para a literatura do próximo milênio defende a concepção do romance contemporâneo como enciclopédia e usa como exemplo a obra de Gadda e Musil. Para o primeiro "a compreensão consistia em deixar-se envolver na rede das relações" (12), em outras palavras, esse escritor " vê o mundo como um sistema de sistemas, em que cada sistema particular condiciona os demais e é condicionado por eles" (13). Musil, por sua vez, "dá a impressão de sempre compreender tudo na multiplicidade dos códigos e dos níveis sem nunca se deixar envolver" (14). A visão desses autores não se adequaria perfeitamente a idéia presente nos conceitos de hipertexto ("rede de relações", "sistemas de sistemas") e multimídia ("multiplicidade de códigos")? Muito provavelmente os recursos tecnológicos não só irão criar um novo formato de livro e novos hábitos de leitura, como também exercerão grande influência sobre as formas literárias. Segundo Calvino, "o que toma forma nos grandes romances do século XX é a idéia de uma enciclopédia aberta, adjetivo que certamente contradiz o substantivo enciclopédia, etimologicamente nascido da pretensão de exaurir o conhecimento do mundo encerrando-o num círculo. Hoje em dia não é mais pensável uma totalidade que não seja potencial, conjectural, multíplice" (15).

A combinação de três fatores garantiu, a sua época, o sucesso do livro impresso em relação aos manuscritos: portabilidade, baixo custo e capacidade de ampla e rápida difusão. Como vimos esses dois últimos fatores atuam a favor dos meios informatizados. O único impecilho, no entanto, parece ainda ser a portabilidade. Os defensores do papel alegam que não dá para levar o computador para cama ou para o sofá, nem muito menos ler um livro digital no ônibus ou no metrô. Nicholas Negroponte garante que já existem alguns projetos sendo desenvolvidos no sentido de superar esse problema. "Um novo esforço está sendo feito no Media Lab por Joe Jacobson, e envolve um tipo de papel eletrônico, um medium de alto contraste, baixo custo, e que permite leitura/impressão/apagamento (...) São páginas mesmo, onde você poderia fazer o "download" de palavras, em qualquer fonte, em qualquer corpo. Para os 15 milhões de americanos que querem livros impressos em letras grandes, isso seria um presente dos céus — se Joe tiver sucesso nos próximos anos. Assim, para aqueles entre vocês que não querem ir para cama com um 'Intel Inside', há uma esperança" (16).

Quando uma interface portátil e de agradável leitura for alcançada, o livro impresso finalmente atingirá seu estado terminal. No entanto, certamente haverá alguns nostálgicos resistentes que argumentarão que a biblioteca não terá a mesma imponência sem aquelas filas de livros dispostas nas prateleiras, como símbolos da erudição de seus donos. Outros dirão em tom melancólico que não será mais possível acompanhar o amarelar das páginas com o passar dos anos. Aqueles mais sensitivos nunca se acostumarão com a falta do "cheirinho" tão característico do papel. Todo esse apego ao passado pelo menos tem a vantagem de assegurar o sustento dos antiquários.

Leia resenha do livro "The future of the Book".

 

Sites para visitar:

Britannica Online

Internet Road Map to Books

LibWeb Library WWW Servers

Livros e autores

Online Dictionaries and Translators

Prossiga/Rei

The American Library Association

The Internet Bookshop

The Library of Congress

Visual Books - divulgação de livros

 

Notas de referência:

(1) MACHADO, Arlindo. "Ensaios sobre a Contemporaneinade" (CD-ROM) p. 11

(2) MACHADO, Arlindo. "Ensaios sobre a Contemporaneinade" (CD-ROM) p. 12

(3) CALVINO, Ítalo. "Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas". Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.138

(4) MACHADO, Arlindo. "Ensaios sobre a Contemporaneinade" (CD-ROM) p. 16

(5) MCLUHAN, Marshall. "Os meios de comunicação como extensões do homem". Tradução de Décio Pignatari. São Paulo: Editora Cultrix. p. 27

(6) BAIRON, Sérgio. "Multimídia". São Paulo: Global, 1995. (Coleção contato imediato) p. 146

(7) LARGE, Peter. "The Micro Revolution Revisited" apud WURMAN, Saul Richard. "Ansiedade de informação: como transformar informação em compreensão". São Paulo: Cultura Editores Associados, 1991. p. 39

(8) SCHRAMM, Wilbur. PORTER, William. "Men, Women, Messages and Media: Understanding Human Communication" apud WURMAN, Saul Richard. "Ansiedade de informação: como transformar informação em compreensão". São Paulo: Cultura Editores Associados, 1991. p. 222

(9) MACHADO, Arlindo. "Ensaios sobre a Contemporaneinade" (CD-ROM) p. 29

(10) MACHADO, Arlindo. "Ensaios sobre a Contemporaneinade" (CD-ROM) p. 22

(11) LÉVY, Pierre. "As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática" Tradução Carlos Irineu Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993 (Coleção Trans) p. 37

(12) CALVINO, Ítalo. "Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas". Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 125

(13) CALVINO, Ítalo. "Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas". Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 121

(14) CALVINO, Ítalo. "Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas". Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 125

(15) CALVINO, Ítalo. "Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas". Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 131

(16) NEGROPONTE, Nicholas. "O Futuro do Livro". - http://www.agestado.com.br/virtual/index.htm