TATUAGEM: A CONTROVERTIDA ARTE DE PINTAR O CORPO


Lêda Paraíso

Milênios se passaram e a tatuagem continua inspirando paixões, ares desconfiados e muitos preconceitos no nosso mundo dito civilizado. Mas você sabia que em universos mais primitivos, essa prática de inscrição na pele, ao contrário de ceder margem a polêmicas, era uma obrigação cultural que honrava e distinguia os membros do grupo?
Em 1991, na Suíça, encontraram uma múmia tatuada que gozava em torno de 5300 anos. Os tattoos já faziam a cabeça dos ancestrais mais remotos do homem. Sua função, no entanto, ainda não se resumia a criar modismos ou controvérsias. As tatuagens serviam para identificar a tribo, selar rituais de passagem como adolescência, puberdade, matrimônio, etc; ganhar status ou dar proteção contra maus espíritos. E assim pensavam desde as tribos da África Negra, os nativos do Taiti e Indonésia, até os índios Tapirapés do Brasil Central.
Produzir conflitos de geração não fazia parte do seu dicionário. Nas ilhas Marquesas os pais economizavam bens, como porcos, enfeites e armas de guerra, para pagar o tuhuna( tatuador ) pela tatuagem do primogênito quando chegava a hora do menino virar homem. A sofisticação e o tamanho do desenho indicavam a nobreza e o poder dos donos. Já as mulheres, dessas tribos, tatuavam o pé e a mão direita para que o seu estado civil pudesse ser identificado.
Essa arte de adornar o corpo com desenhos perenes, ao ingressar nos limites do ocidente, foi dotada, no entanto, de uma certa aura de transgressão e violência. As tatuagens marcaram o perfil estético de elementos e grupos marginalizados, pela sociedade: bandidos, gangs de rua, punkies, Hell’s angels e muitas tribos originárias do Rock in Roll.
Nos presídios ela é ainda uma das linguagens do corpo mais assustadoras. Cada inscrição pode simbolizar o grau de periculosidade do prisioneiro, a vinculação do preso à uma determinada quadrilha, ou zona de tráfico, os crimes cometidos, as crenças religiosas etc. Assim o tatuado tornou-se protótipo de marginal. “ Quando fiz a minha tatuagem, eu queria ter apenas um desenho bonito no corpo e não chocar os outros. Mas todo mundo espera de mim atitudes agressivas, “ queixa-se Jussara, estudante porto-alegrense, 25 anos.

Preconceito

Estigmas a parte, o fato é que a tatuagem a muito estrapolou os fronteiras do submundo. Caveiras, índios, pássaros, borboletas, etc, também colorem a epiderme de artistas, intelectuais, mocinhos e cinhas bem nascidos, e outros grupos sociais aceitos. Explica o professor da UFBA e antropólogo, Roberto Albergaria: “ Inicialmente a tatuagem era usada como marca identitária de um grupo marginal e aos poucos foi sendo apropriada pela juventude como símbolo de distinção etária e de estilo.”
Os tattoos, hoje no mundo da estética, são muito bem recebidos na recomposição de sobrancelhas, delineamento dos olhos e lábios, cobertura de manchas e cicatrizes e para pintar unhas. Lentamente, também passa a ser reconhecida como arte, graças as iniciativas dos tattoo clubs de todo o mundo. Eles promovem exposições, competições com os melhores trabalhos e realizam anualmente convenções para a atualização e modernização dos métodos de aplicação da tatuagem e de assepsia. "A pele é nossa tela", diz Bingha, um dos mais conceituados tatuadores de Salvador. Nela podemos tatuar qualquer desenho: um índio, um tribal ou mesmo uma Mona Lisa. Em Amsterdã, existe um museu só para ela. Aqui os preconceitos continuam a formar nuvens negras sobre as cabeças dos tatuados.
Segundo o cirurgião plástico Carlos Kerner, passado os anos rebeldes da juventude, muitos tentam retirar a tatuagem. “ Certos cargos, profissões e órgãos como a polícia militar e o exército não aceitam pessoas tatuadas. “ Carmem Ferreira, vice diretora da Escola de Inglês English Forever, nunca pensou em se livrar da águia tatuada nas costas ou do cogumelo na coxa esquerda. “Elas se encontram em locais pouco visíveis. Não me prejudicam, nem me incomodam.” Mas admite que a tatuagem pode contar pontos negativos na apresentação de um candidato a emprego.
É por essas e outras que os amantes da arte no corpo têm optado pela discrição. Desenhos pequenos posicionados em locais estratégicos. “Nada de escancaração. Verá quem eu quiser que veja”- afirma Marina Araújo, 16 anos, que se considera a ovelha negra da família . Ângela Simons, 17 anos, fez escondido dos pais uma tatuagem acima das nádegas."Só dá para ver de biquíni, e eu não ando vestida assim dentro de casa". Para Bingha, a procura por locais pouco visíveis é uma tentativa de se preservar do preconceito existente.
Apesar da discriminação, tatuar ainda é um bom negócio. "No verão chegamos a faturar mais de 2000 reais por mês", diz Alanath, tatuador profissional de rua. Levando em consideração o preço médio de uma tatuagem pequena, algo em torno de R$ 25,00, não é preciso ser gênio em matemática para perceber quão grande é a demanda.







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