“O principal problema do telejornalismo online é na estrutura”

Luciana Silva

Entrevista com Bernardo Carvalho

Repórter e apresentador do Jornal da Lílian, no Portal Terra, durante dois anos, e atual coordenador do curso de Jornalismo da Faculdade de Ciência e Tecnologia (FTC), em Salvador. Num bate-papo com o Panopticon, o jornalista mineiro Bernardo Carvalho conta um pouco da experiência de ter trabalhado no telejornalismo online, ressaltando as dificuldades na produção desse gênero. 

PANOPTICON: Qual foi o grande desafio de trabalhar no telejornalismo online?

BERNARDO CARVALHO: Eu e as outras pessoas da equipe usávamos as funções básicas de e-mail, de portal de notícias, mas nenhum conhecimento específico de internet. Nisso foi fundamental todo o aparato que havia dentro do Terra, de pessoas especializadas nesse trabalho - o pessoal chegou a mostrar como montar o cumbuco, que era um programa específico para a operação do jornal. Nós “desenhamos” a notícia, e eles montaram o site pra gente poder operar. Foi uma adaptação a um veículo novo trazendo os conhecimentos do telejornalismo, abrindo um caminho que está praticamente inexplorado.

PANOPTICON: Vocês mesmos cuidavam da parte de informática ou havia uma equipe específica para isso?

CARVALHO: No início nós precisamos de muita ajuda, mas o próprio pessoal do Terra falou: “Olha, nosso objetivo é que vocês se virem, até chegar ao ponto de vocês operarem sozinhos”. Houve um tempo em que nós fazíamos toda a operação, depois de montada a estrutura do programa. Porém, por causa do tempo que a equipe perdia, tivemos que pedir ajuda de um webmaster. Por exemplo, ao fazer a entrevista, o próprio jornalista tinha que sentar para transcrever, e depois fazer a parte operacional. A equipe era muito reduzida, com seis pessoas somente, então se ocupasse uma pessoa para ficar com toda essa parte operacional, já tirava cerca de 15% da equipe. Então nós pedimos ajuda nesse sentido, para liberar a equipe para fazer jornalismo.

PANOPTICON: Em sua opinião, o telejornalismo online consegue aproveitar todas as potencialidades da rede?

CARVALHO: Bem, eu tenho uma certa dificuldade em falar por todos, porque eu não conheço bem por dentro todas as experiências. Sei que no Jornal da Lílian a gente foi descobrindo coisas com o tempo, como colocar charges animadas, terceirizadas, feitas por chargistas de São Paulo que têm empresas. Nós fazíamos chats, num intercâmbio com as pessoas, de mandar pergunta e responder. A parte de vídeo a gente usava muito pouco, por falta de recursos – não havia equipamento suficiente para colocar um monte de equipes de reportagem na rua, em São Paulo e no resto do País. Tinha algumas poucas equipes em São Paulo e, mesmo assim, divididas com o Portal inteiro. As outras potencialidades eu não sei, eu acho que a gente começou a explorar o terreno. Não acho que explorou totalmente nem que tenham sido esgotadas as possibilidades – ainda há muito o que fazer.

PANOPTICON: A partir da sua experiência de dois anos no Jornal da Lílian, qual é o grande problema enfrentado pelo telejornalismo online hoje?

CARVALHO: Olha, acho que o principal problema é na estrutura, porque quando a equipe foi montada, o Terra ofereceu muito dinheiro para a Lílian, querendo atrair um grande nome do telejornalismo, e disponibilizou poucos recursos para o restante da equipe. Achava-se que iria botar 15 jornalistas a dez mil reais cada um. Conseguiu contratar cinco com salários muito menores. Também coincidiu com o período de declínio das pontocom, as empresas da chamada nova economia da internet em geral, que tiveram aí esse boom, depois foi ladeira abaixo. Nós não tínhamos, por exemplo, correspondente em Brasília. Havia uma menina em São Paulo que ficava ligando para deputados, senadores, para as pessoas, tentando levantar notícias em Brasília por telefone. Isso é um absurdo jornalístico. Deveríamos ter um correspondente lá, com suas fontes, levantando as questões, seria o ideal. Quer dizer, fica uma estrutura muito dependente de ver as notícias que estão veiculando na rede, de telefone que era usado freneticamente, mas isso ainda é pouco para cobrir bem, ter notícias próprias, originais. O objetivo não é só ficar reciclando coisas da internet, é você ter levantamento próprio para isso.

PANOPTICON: Em sua opinião, porque ocorre esta falta de investimento?

CARVALHO: É porque a internet não se achou ainda, a forma de financiamento ainda é para mim uma coisa aberta. Por exemplo, quando surge aquele pop up, as pessoas desligam antes de dar tempo de aparecer. É muito fácil eliminar a publicidade. E a eficácia dos banners que aparecem lá nos sites também é pequena, ainda não está comprovado que realmente causam um grande efeito. Daí as empresas não investem tanto, não a consideram uma mídia bem amadurecida e eficaz, com isso existe uma dificuldade de captação de recursos, conseqüentemente dificuldade de contratar bons profissionais, de investir... Eu acho que a internet em geral e o telejornalismo na web, em particular, vão crescer, porém partindo de um outro patamar. A bolha estourou, acabaram aqueles sonhos que havia no começo de 2000, de jornalistas sendo contratados a 15, 20, 30 mil reais por mês. Baixou a expectativa, mas vai ter um espaço. Agora, pra onde vai, e o quanto vai conseguir fazer, eu não sei prever.

PANOPTICON: O que seria esse outro patamar em que o telejornalismo online se desenvolveria?

CARVALHO: Já está num patamar mais baixo: salários mais baixos, menos gente, falta de estrutura, é isso que eu já tinha dito antes, está desinflado.

PANOPTICON: E como fica o papel do jornalista na divulgação das informações, já que com a internet qualquer pessoa pode colocar informações na rede?

CARVALHO: Vai ter que demonstrar competência pra mostrar que ele é necessário, ou seja, ele tem que exercer bem as funções básicas de um jornalista, de levantamento de informações, de poder ter fontes próprias, informações exclusivas, de checagem, para que o internauta saiba que deve ver determinado site, reconhecendo que ali está uma informação de qualidade. Internet é um veículo que pode estar quase que instantaneamente dando as informações, porém isso não quer dizer que elas são boas. E o pessoal que cresce na cultura da internet, que não passou por uma redação de jornal impresso e de TV, a tendência é achar que pode colocar qualquer coisa, como algumas pessoas que falaram: “Poxa, vocês levam muito a sério esse negócio de apuração, porque nós aqui estamos acostumados a jogar [a informação], se der zebra, muda”. É mais ou menos não imaginar que tem muita gente do outro lado que está consultando aquela informação. Então, os jornalistas que têm uma experiência maior e que vão para a internet, eles levam essa bagagem de, “peraí, é isso mesmo, liga lá, checa, não vamos copiar essa informação que saiu aqui”. É essa cultura que faz a diferença de quem está jogando a informação por lazer, amadoristicamente, e o trabalho profissional, mais competente.

PANOPTICON: Dentro da experiência do Jornal da Lílian, o que mais te marcou?

CARVALHO: O que mais marcou foi o stress miserável, numa situação em que fui internado com pré-infarto num determinado momento, pois nós tínhamos cinco fechamentos diários, era uma loucura. Então pelo fato de ter pouca gente e tanto fechamento, cada um desses boletins era considerado como um jornal de televisão, e não podia repetir notícias de um para o outro. Tinha um lado muito interessante de instantaneidade, de rapidez, de contato com o espectador, a resposta imediata, o fato de poder deixar o material pronto e a pessoa baixar na hora que quiser, poder ter links, mandar pra outras matérias, outras produções, tem várias características interessantes. Mas a sensação que dava no final do dia era que a gente tinha passado por uma máquina de triturar e, ao final, na hora de espremer, o que você tinha tratado com profundidade era pouca coisa, porque a característica básica era a notícia, hard news o tempo todo.

PANOPTICON: E como foi a resposta do público?

CARVALHO: Ah, sim, teve muita resposta. A gente recebia milhares de e-mails por dia, metendo o pau, elogiando... a interação com o internauta era muito forte.

PANOPTICON: E continua acompanhando hoje os telejornais online?

CARVALHO: Como eu mudei para Salvador, e a FTC mudou para um campus novo, as coisas estão meio confusas ainda, mas pretendo continuar vendo.

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Foto: Terra Chat (29/09/2000)

 

Bernardo Antônio Carvalho

·        Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – 1975
·        Mestre pela Universidade de Missouri – Columbia (EUA) – 1978
·       
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG – 1978-87
·       
Repórter da TV Manchete – 1985-87
·       
Editor do SBT – 1988
·       
Editor-chefe de Geral da TV Cultural – 1989
·       
Redator de Internacional de O Estado de S. Paulo – 1990
·       
Coordenador do projeto “2000 Hoje”, da BBC de Londres – 1991-94
·       
Editor e Comentarista de Internacional da TV Record e Editor-chefe do Jornal da Record, 2ª edição – 1994-2000
·       
Editor e apresentador do Jornal da Lílian, no Portal Terra – 2000-02
·       
Coordenador do Curso da Jornalismo da FTC - 2002