Diários Íntimos

Amanda Mota

A origem dos diários íntimos, seu desenvolvimento e transposição para a Internet. Esse foi o tema desenvolvido pela jornalista Rosa Meire de Carvalho Oliveira no mestrado da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Em sua pesquisa, defendida em fevereiro deste ano, Rosa Meire concluiu que os blogs representam um gênero narrativo baseado nas facilidades oferecidas pela Internet. Com orientação do professor Marcos Palácios, a pesquisa Diários públicos, mundos privados: diário íntimo como gênero discursivo e suas transformações na contemporaneidade já foi oferecida para diversas editoras e sua publicação deve acontecer em breve. O Panopticon fez esta entrevista por e-mail.

PANOPTICON - Por que o estudo dos diários íntimos?

Rosa Meire - Comecei minha pesquisa em 1999 mobilizada pela coluna Netvox, da Folha de S. Paulo, escrita à época por Maria Ercília que fazia comentários sobre o diário virtual de um americano chamado Justin Hal, famoso por publicar toda sua vida on-line. Ele falava de tudo abertamente: das bebedeiras, dos namoros, de problemas familiares, como o suicídio do pai, do dia-a-dia, enfim. Eu já trazia também inquietações nascidas do curso de psicanálise que fiz, entre 1996 e 1998, no Colégio de Psicanálise da Bahia.

Observando as discussões que se estabeleciam à época, no meio acadêmico, sobre computadores, informática, novas tecnologias, passei a me interessar pela relação que se estabelecia entre o homem e a máquina, no campo maior do humano, da subjetividade. Foi aí que decidi apresentar o projeto no Programa de Pós-Graduação da Facom, onde ingressei em 1999. A pesquisa foi defendida em fevereiro último, na qual me concentrei em levantar a origem, desenvolvimento do diário íntimo e sua passagem para o universo online. Dividi o estudo em cinco capítulos. Em três dos quais eu trato da origem e desenvolvimento do diário no mundo e também no Brasil e nos dois últimos capítulos mapeio a passagem dos diários tradicionais para o suporte digital, a rede. Nessa trajetória, eu avalio as diversas funções que os diários exercem ao longo do tempo e faço algumas descobertas.

PANOPTICON – Aonde surge o termo diário íntimo?

Rosa Meire - Embora os blogs surjam com essa natureza pública por causa da rede, não é a primeira vez que o diário enquanto gênero discursivo se apresenta dessa forma. Na dissertação, utilizo-me das categorias do pesquisador inglês Robert A. Fothergill que observa que os diários antes de alcançar a função de relato íntimo, do privado, no século XIX, apresenta-se em quatro categorias como pré-diários: Diários Públicos, Diários de Viagem, Diários de Memória Pessoal e Diários de Consciência ou Espirituais .

É bom lembrar que, embora tenham se difundido no Ocidente, essa categoria de diários íntimos nasce no Japão, com as mulheres da Corte de Heian, que já no século X mantinham os chamados pillow books (livros de cabeceira) privados. Um dos mais conhecidos exemplos de diários foi escrito por Sei Shanogan. Intitulado Makura no Soshi, os diários de Sei faziam um retrato da corte da época, além de exprimir os estados de humor e as experiências diárias da autora.

PANOPTICON - Qual o objetivo da pesquisa?

Rosa Meire – A pesquisa demonstrou a origem remota dos diários, que são tão antigos quanto a própria escrita. Destaco a sua evolução no tempo, através das categorias de pré-diários: diários públicos, diários de viagem, diários de memória pessoal e diários de consciência ou espirituais. A partir daí classifico o diário como “o livro do eu”, de caráter privado, íntimo, surgido no século XIX e se estende por todo o século XX, mantendo-se até hoje. A escrita desses diários continua a se apresentar e encontra, em paralelo, o surgimento dos diários virtuais, os ciberdiários, no início da década de 1990.

PANOPTICON – Qual a metodologia utilizada no trabalho?

Rosa Meire - Dividi os diários on-line em duas etapas: a primeira, que eu chamo de primeira onda, surge em 1993/1994 quando aparecem na internet os primeiros exemplares de diários virtuais. Para publicizar um diário virtual na internet era preciso dominar a linguagem de construção de páginas na rede, como o HTML e ferramentas como o FTP. Nessa fase, como acontece agora, os diários virtuais exerceram muitas funções que não só a de diários íntimos. Surgiram centenas de diários temáticos, como diários de quem faz dieta, diários de gays e lésbicas, diários de cidadãos de origem asiática, e assim por diante. Muitos desses diários passaram a ser agrupados em anéis de sítio, como o Metajournal ou o Open, que ficaram muito famosos. Além disso, os diaristas passaram a se falar por listas de discussão, como a Scribe Tribe, criada em 1996, ou mesmo se encontrar pessoalmente, como aconteceu com o JournalCon, um seminário que reuniu por três vezes, nos Estados Unidos, desde 1998, os ciberdiaristas.

Já a segunda onda surge em 1999. Quando muita gente se perguntava sobre o futuro dos diários on-line, uma nova ferramenta foi criada, impulsionando com grande força o fenômeno dos diários pessoais na rede mundial de computadores. No mês de julho daquele ano, a empresa Pitas criou o primeiro software grátis e em agosto o americano Evan Williams, da empresa Pyra Labs, criou ferramenta semelhante, o Blogger, que se transformaria no ícone de um conceito que revolucionaria a criação e postagem de páginas pessoais na internet. Depois destes, outros softwares despontariam, transformando radicalmente a alma da rede. GrokSoup ; Weblogger, entre outros.

PANOPTICON – Qual a relação dos diários com os blogs?

Rosa Meire - O principal diferencial da nova ferramenta é que ela trouxe velocidade na criação, postagem e atualização dos ciberdiários, democratizando o acesso de não-especialistas em linguagens como html e em ferramentas como o ftp, dentre outras, à construção e manutenção das páginas pessoais. Com isso, qualquer pessoa que domine noções básicas de inglês pode ter um weblog ou blog, como passaram a ser chamados os diários criados com este modelo de ferramenta que se assemelha a um editor de textos.

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Rosa Meire Carvalho de Oliveira, 38 anos, é baiana, graduada pela Faculdade de Comunicação da UFBA. Trabalhou como repórter, editora e assessora em diversos órgãos da imprensa na capital. O interesse pelo tema dos diários íntimos online surgiu a partir de um curso no Colégio de Psicanálise da Bahia. Atualmente, Rosa Meire dá aulas na Faculdade Integrada da Bahia, nas disciplinas de jornalismo digital e oficina de comunicação.