Segredos do Estado
Em entrevista por e-mail (25/03/2002), o editor-chefe do estadao.com.br fala de sua experiência na rede e revela detalhes sobre o funcionamento do portal
por Vanuza Ramos
e Raquel Iglesias

Panopticon - O estadao.com.br difere de outros sitesjornalísticos brasileiros no que se refere ao uso do espaço. Como vocêsda redação do "Últimas Notícias" utilizam os recursos da WEB para prendero leitor, considerando-se a dicotomia: atenção limitada do leitor X espaço ilimitado do meio?
Sérgio Vaz -
Como vocês mesmo notaram, já que está dito na pergunta, o estadao.com.br difere dos demais no uso do espaço, especialmente do espaço na primeira página, a home main. Ao contrário do que acontece em todos os demais portais de notícia, nossa primeira página não tem formato prefixado, com templates fixas, em que apenas mudam os títulos. Nossa primeira é inteiramente aberta, sem camisa-de-força. Assim, podemos tratar cada notícia com o peso que ela merece; podemos usar corpos maiores para notícias de maior impacto; podemos abrir mais as fotos excepcionais e assim por diante. De resto, enfrentamos, como todos os sites, o problema de peso das páginas: uma página pesada demora mais para abrir, e isso afasta os leitores. Desta maneira, o espaço do meio não é tão ilimitado assim.

Panopticon - Quanto à transposição da versão impressa para o site, existealgum tipo de avaliação ou adequação para edição online? Quando isso éfeito e a partir de que horas é disponibilizado esse material?
Sérgio Vaz -
A transposição tanto de O Estado de S. Paulo quanto do Jornal da Tardepara o portal estadao.com.br é feita logo após o fechamento dos jornais, entre as 22 horas e cerca de 1 hora da manhã. O material dos dois jornais está inteiramente disponível a partir daí: 1 hora da manhã. Lembro que apenas os jornais do Grupo Estado ficam inteiramente disponíveis na Internet, gratuitamente. Os demais são disponibilizam todo o seu conteúdo na rede. Esta foi uma decisão editorial do Grupo Estado.

Panopticon - Existe tolerância para o tamanho das notícias na WEB?
Sérgio Vaz -
Para as notícias, o espaço na Internet é, como vocês mesmos diziam,ilimitado. Por isso não há limitação de tamanho, no estadao.com.br. Há quem ache que notícias compridas não são lidas. Há quem ache tudo? Como diria o Millôr, livre achar é só achar. Eu, pessoalmente, acho que a importância da notícia define o tamanho que ela deve ter; se o leitor quiser ler só o lide, tudo bem, a opção é dele. Mas se a notícia merece ter 100 linhas, terá 100 linhas. Naturalmente, se temos uma informação importantíssima e urgente, entramos com o flash curto. Mas em seguida entramos com a informação mais consolidada. Aliás, esta é outra característica que nos diferencia de outros portais e sites de notícia. Ao contrário de muitos deles, nãopicamos notícia para parecer que temos um volume grande de informação. Nosso volume de notícias já é grande mesmo; não precisamos usar qualquer artifício para demonstrar isso.

Panopticon - No jornal impresso, as páginas delimitam a produção e matérias, o que não ocorre na versão online, que tem espaço ilimitado.Vocês aproveitam (para o site) as matéria que não foram veiculadas noimpresso por falta de espaço?
Sérgio Vaz -
Sim, aproveitamos. A produção da Agência Estado e das redações dos dois jornais sem dúvida é muito maior do que os jornais em papel comportam; oportal utiliza diariamente matérias que não foram veiculadas na versão impressa.

Panopticon - Você acha que o modelo da Pirâmide Invertida é adequado àestrutura do texto jornalístico na WEB?
Sérgio Vaz -
Acho que sim. Até porque, assim como acontece no meio impresso, alguns leitores podem por falta de tempo, por opção, por preguiça, seja lá por que motivo for querer ler apenas os primeiros parágrafos de uma notícia ou de outra. Se os fatos mais fundamentais, mais básicos da notícia estiverem concentrados nos primeiros parágrafos, melhor.

Panopticon - Como fica a questão do valor notícia quando o que se buscaé a informação em primeira mão e a alimentação contínua do sistema deúltimo minuto com dados novos?
Sérgio Vaz -
Não creio que o que se deve buscar seja apenas a informação em primeira mão. A informação em primeira mão, rápida, imediata, é importante, é claro, mas não é tudo. Há todo um mundo de informações que se segue a uma notícia importante: os desenvolvimentos, os detalhes, as repercussões, as análises. Tudo isso é necessário, me parece, num portal de informações e é o que buscamos forecer aos leitores.

Panopticon - A ausência de um texto linear pode confundir o leitor? Há umpadrão para o uso de links ou hipertextos no portal Estadão?
Sérgio Vaz -
Na verdade, acho até que o estadao.com.br usa menos links do que seria ideal. Não usamos mais por falta de tempo e de mais pessoas na redaçãopara editar o material. Mas nos esforçamos sempre para dar links para matérias relacionadas, no final de cada notícia.

Panopticon - O hipertexto garante ao leitor o "poder de controlar o quever. Você acha que isto pode mudar a rotina de produção e escolha dasnotícias publicadas na Internet?
Sérgio Vaz -
Francamente, não sei. Acho que um portal de notícias deve dar aosleitores o mais amplo leque de assuntos que for possível, para que cada leitor possa aproveitar a parte desse leque que interessa a ele.

Panopticon - No caso do Estado de S. Paulo, a edição do jornal impresso edo online se voltam complementares à utilização de indicadores como "leiamais na versão impressa" ou "veja mais na online"?
Sérgio Vaz -
Ainda não vínhamos fazendo isso de maneira regular e constante. Estamos, neste momento mesmo, discutindo formas e critérios de sermos maiscomplementares, o portal e o jornal impresso, com o portal dando mais detalhes (em boxes, quadros, retrancas complementares, íntegras) do que está publicado no jornal impresso.

Panopticon - Eu consegui entrevistar você somente devido à questão dorecurso da interatividade, bastante aplicado no portal Estadão. Como esserecurso está influenciando o formato da notícia na Internet e a relaçãojornalista/leitor?
Sérgio Vaz -
Olhe, não sei quanto ao formato da notícia. Mas posso dizer, com todacerteza, que trabalhar com notícias na Internet dá um enorme prazer, graças à dimensão e ao imediatismo da resposta dos leitores. É uma coisa absolutamente fascinante a resposta dos leitores em volume e em rapidez. Outro dia botamos na home page uma enquete sobre a Seleção brasileira de futebol. Em cinco minutos, já tínhamos umas 20 respostas; em cinco horas, foram cerca de 2 mil. No mesmo dia entramos com outra enquete, sobre política: perguntamos ao leitor quem ele achava que tinha saído perdendo com o episódio da saída do pefelê do governo, no dia emque o pefelê anunciou a saída. Eu achei que fosse ter muito menos retorno do que a enquete de futebol. Pois o retorno foi ainda maior e sábio. A imensa maioria identificou claramente que a Roseana e o pefelê perderam. Na enquete sobre a Seleção, tivemos retorno de 2.176 leitores. Na do pefelê, foram 3.534. Um erro de português que a gente comete (e a gente comete muitos, infelizmente, na pressa; ainda bem que na Internet, ao contrário de no jornal impresso, dá pra consertar rapidinho...), e literalmente chovem e-mails de leitores. Os leitores protestam contra tudo o que eles julgam errado no material. É uma coisa maravilhosa. Costumo brincar com os amigos: isto aqui é um canhão. É um poder incrível.

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Sérgio Vaz é, há um ano, editor chefe do portal estadao.com.br. O jornalista tem 52 anos de idade e uma grande experiência: 32 de jornalismo. Entre 1970 e 1984, foi repórter, copydesk, subeditor e editor de Reportagem Geral no Jornal da Tarde. Depois foi editor de Geral e de Cultura e em seguida redator chefe da revista semanal Afinal, desde a fundação, em 1984, até o fechamento, em 1988. A partir de 1988 e até 1992,
participou da equipe que reformulou completamente a Agência Estado e a transformou na principal agência de notícias do País.

Também criou uma empresa, a Casa do Texto, que fazia textos para diversas empresas. Durante dois anos, foi redator chefe da revista Marie Claire, mplantada no Brasil por Regina Lemos. Voltou para a Agência Estado em 1995, para editar um serviço de notícias online para o público empresarial, chamado Infocast, que depois viria a ser reformulado e transformado no AE Setorial.