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Marina Amaral - O senhor acredita que os organismos internacionais possam ter
força no futuro? Pode existir uma ONU que funcione mesmo?
Milton Santos - Quando se fizer a globalização por baixo, sim, porque haverá
outra realidade. Mas do jeito que está, há uma poluição dos organismos internacionais,
acabam poluídos.
Marina Amaral - Essa globalização por baixo seria via ação local de todos os
povos?
Milton Santos - Acho que vai haver, no caso do Brasil, primeiro, uma outra
federação. Vamos produzir uma outra federação. Os lugares vão se mostrar
insatisfeitos, vão entender por que estão insatisafeitos, o que não sabem completamente
ainda. Daqui a pouco vai haver uma reforma na Constituição, feita por cima, mas daqui a
alguns anos vai haver outra, feita por baixo, porque essa por cima não vai funcionar.
Isso vai acontecer em alguns ou todos os países. Aí, depois que fizermos a nossa
federação por baixo, haverá
a produção da globalizaçào por baixo também, com novas instituiçòes internacionais.
Marina Amaral - Esse processo é pacífico, professor?
Milton santos - Não, não é pacífico.
Leo Gilson Ribeiro - E leva a um desmembramento do Brasil, ao separatismo?
Milton Santos - Ao contrário, porque é por baixo. Vem de baixo para cima, vem
com emoção, com menos cálculo. E vai incluir os negros, as minorias, quer dizer, as
minoridades, porque não são minorias...
Marina Amaral - A questão negra terá uma importância muito maior?
Milton Santos - Claro. Já está tendo maior que na minha maturidade (risos), do
que na minha juventude, e terá muito maior, porque os negros não vão para lugar nenhum!
E com a globalização eles serão... nós seremos - ato falho - (risos) ainda menos
atendidos.
Marina Amaral - E que prazo o senhor prevê para essa outra globalização?
Milton Santos - Não tem prazo. Depende de um conjunto de circunstâncias, não
sei como a coisa vai evoluir na Índia, na China, no Irã, no Iraque.
Georges Bourdoukan - Professor, a semana passada, nos Estados Unidos, a Ku Klux
Klan e os neonazistas fizeram uma série de manifestações, não querendo mais que os
negros circulassem nas ruas. Aí, de repente, ressurgiram os
Panteras Negras, desfilando armados. Como o senhor analisa esse fato?
Milton Santos - Passei agora uns meses ensinando lá, e uma coisa que me espantou
e atribuí, como sempre olho as coisas, ao território californiano, que é extremamente
fluido, bem organizado, bonito do ponto de vista material, com urbanismo aceitável, mas
com extrema aridez da vida social e das relações interpessoais, ligadas ao fato de que
é o creme do mundo moderno, informatizando, etc. Então é o lugar de ordem, da
necessidade da obediência a regras, do pragmatismo, e também o lugar onde as conquistas
sociais estão em regressão muito grande. O Estado suprimiu, via plebiscito, aquela coisa
da discriminação positiva, depois a língua espanhola, que era tratada com certa
igualdade com a ex-língua nativa, também foi suprimida, com outro plebiscito, quer
dizer, uma volta atrás. Então, essa reação eu
imaginava. É nesse sentido que digo que no Brasil os negros vão deixar de ter a
posição que têm hoje, pois ainda sorriem, e vão começar a ranger os dentes. O que é
preciso é que os negros queiram ser a nação brasileira. Não tem de imitar americano,
nem querer ser africano. Porque quando quero ser africano - ou africano brasileiro -,
acabo sendo menos político. Sou político no meu país, porque não há política global,
por enquanto. Então, esses atos de violência nos Estados Unidos vão Ter o
correspondente no brasil em atos de revolta, de rebelião, de manifestações grandes, em
outra
escala e com mais força.
Georges Bourdoukan - O senhor sente isso mesmo?
Milton Santos - Prevejo.
Marina Amaral - Como o senhor vê a evolução do movimento negro no Brasil, é
rápida ou lenta?
Milton Santos - Se eu olhar para trás, há um crescimento, tanto na velocidade
quanto na intensidade. Pode estar misturado com vontade de ser classe média, que polui um
pouco as coisas, mas há um crescimento. O fato de que os negros tenham ido para a
faculdade também é importante - descobrem também que não vão conseguir emprego. Ou os
que conseguem são de menor remuneração. Quando estou pensando na classe média, penso
na minha solução individual, que é o pensamento da classe média típico, não é? Mas
está havendo uma tomada de consciência, digamos assim, do fato de ser relegado.
Porque os negros não fazem parte da nação brasileira, isso é outra coisa. Sinto isso.
Pessoalmente é minha experiência.
Sérgio de Souza - O senhor sente que isso se dá em ralação ao pobre?
Milton Santos - Não é a mesma coisa. Porque não está claro na cabeça...
Sérgio de Souza - Na cabeça do pobre?
Milton Santos - Não, na cabeça dos outros. Quando se é negro, é evidente que
não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será o pobre. É muito
diferente.
Sérgio Pinto de Almeida - Só excepcionalmente não será.
Milton Santos - Não será pobre, não será humilhado, porque a questão central é a
humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico. E daí o medo, que
também tenho, de circular. Acredito que tenham medo.
Sérgio de Souza - Todos os negros têm medo?
Milton Santos - Todos têm. Posso fazer uma confissão? Tenho uma certa simpatia
por esse rapaz, o Pitta. Esse ataque todos os dias, isso me choca, me dói também. Nunca
votaria nele, não vou visitá-lo até que acabe o governo dele, mas no fundo sou
solidário, porque sei que uma parte disso vem do fato de ele ser negro. Pisado como ele
é pisado todos os dias, quando não se faz isso com ninguém.
Marina Amaral - O senhor tem medo?
Milton Santos - Claro. Esse medo da humilhação.
Marina Amaral - O senhor tem medo de entrar num restaurante chique e alguém
olhar torto porque o senhor é negro?
Milton Santos - Tenho, tenho sim.
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