me reconheceu e explicou que eu precisava me lembrar
exatamente do que havia acontecido, porque a história que eu havia contado não fazia o
menor sentido. Como assim, não fazia o menor sentido?, eu perguntei. E o delegado
explicou que tudo havia sido checado e que nada batia com o meu depoimento ao sargento. O
homenzinho da portaria do hotel garantiu que eu havia saído e chegado só ao hotel
naquela noite. No Peixada de Prata nenhum garçon tinha visto a mulher vestida de negro
com sandália de tipo romano e nenhum deles se lembrava de ter servido ovas de pescada
naquela noite. E seria coisa para lembrar, porque é um prato que tem muito pouca saída,
pouca gente tendo coragem de comer aquilo. No barzinho se lembravam de um senhor meio
grisalho que entrou já tarde da noite, sozinho, bebeu dois martinis e um uisque e saiu de
lá já bem balançado. Não havia traço de qualquer Ana Lívia Cordeiro nos fichários
policiais de Vitória e uma solicitação à Polinter para verificar em arquivos de outros
Estados também havia dado em nada. E o pessoal da Polícia Técnica havia examinado o
quarto do hotel, virando tudo de ponta cabeça, mas não havia encontrado nada de
estranho. Impressões digitais só as minhas e as da camareira. E uma barata
morta ao lado da privada. Gritei, esbravejei e cheguei a dar um murro na mesa do
delegado, mas ele manteve a calma, disse para eu relaxar, que confusões às vezes
acontecem, que eu provavelmente tinha tido um delírio por causa
da operação ou como efeito colateral de algum medicamento que havia tomado, que eu
tirasse a dama de preto da minha cabeça, deixasse de fantasias e fizesse um esforço,
procurando me lembrar como as coisas realmente haviam acontecido... E olhe fale
baixo, vá se aquietando e vá dando o fora porque eu já estou perdendo a paciência com
o senhor e se continuar a gritar eu vou metê-lo no xadrez, mesmo com sua situação de
saúde....![]()