Entrevistada: Alba Maria


Alba Maria

" Há um pássaro sagrado aguardando cada ser no profundo abismo, no ponto onde já não existe mais nada: só ele e o vazio"

Alagoana de nascimento, baiana de coração, Alba Maria atua como psicóloga desde 1986 desenvolvendo seu trabalho na Fundação Terra Mirim – Centro de Luz, especialmente no Espaço Lumiar, o núcleo urbano da Fundação. Nessa entrevista ela fala sobre xamanismo e sua relação com o mundo contemporâneo.

Fonte: jornal Xamã n.1, ano 3, , 7a edição,jan/97.


XamãO que significa xamanismo?

Alba Maria – Xamanismo é uma antiga filosofia de vida que busca, essencialmente, o contato com a natureza, respeitando-lhes os sinais e os elementos básicos que compõem a vida: a água, o ar, a terra e o fogo. Desta filosofia é que surgiram os xamãs ou curadores isto é, pessoas que se dedicam, no seu dia-a-dia, ao exercício da educação e da cura; pessoas que acreditam firmemente em cada ser humano como potencial de luz e que vão trilhando, junto àqueles que buscam algo mais que viver uma vida comum, os caminhos da existência. Com a finalidade de encontrar e descobrir o verdadeiro portal: o tesouro que se esconde no coração de cada ser – o amor pleno e sem reservas. Na revista Vivências n. 29 há uma reportagem onde falo mais sobre este tema.

Xamã O que você pode dizer do xamã do século XX?

Alba Maria – Os xamãs do século XX ou novos xamãs são pessoas que vivem em qualquer lugar do planeta onde haja necessidade do seu trabalho, e não necessariamente no campo (havia um mito que todo xamã deveria viver no campo, nas montanhas, etc.). São pessoas que têm uma disponibilidade imensa para escutar e se colocam como canais no momento em que precisam dizer ou devolver algo para o outro. Na minha prática aprendi que não tenho a cura, a cura é que me tem; que não tenho o amor, o amor é que me tem; que não tenho o poder, o poder é que me tem, e assim saímos da prática do Ter e passamos à prática do ser. Às vezes á difícil para o ego, mas a alma e o coração festejam e assim caminhamos... De verdade sinto que os xamãs contemporâneos são seres que, por terem experienciado em uma de suas existências a vida em contato pleno com a natureza, trazem em si o que chamo "memória celular". Sendo assim, quando se deparam com vivências xamânicas há uma ampliação da consciência e consequentemente um resgate de memória. Esse resgate de memória traz a possibilidade de uma grande mudança de padrão, pois são claramente mostrados núcleos que se repetem na vida atual. Eu digo que essa experiência nos possibilita entrar em nosso inferno para só assim podermos sair. Todos os xamãs entraram e entram em seus infernos para lá resgatarem seu poder; quando desse retorno, podem se sentir seres inteiros, coerentes e seqüenciais. Uma das coisas mais importantes nesse processo é que quanto mais nos descobrimos, mais perdemos o medo da ciência laboratorial, da tecnologia, do novo, etc. Eu sempre digo que, em muitas das minhas existências anteriores, vivi nas montanhas aprendendo a linguagem do universo e, nesses tempos nossa comunicação se dava através da fumaça das nossas fogueiras, e hoje minha comunicação é pelo fax e isso é fantástico! De forma nenhuma quero dizer que a fumaça dos rituais não seja importante, só que hoje ela tem uma fumaça diferente – sei hoje que a fumaça dessas fogueiras é a alma da madeira e ala me diz algo, mostrando o que preciso enxergar. Creio que os recursos tecnológicos são fantásticos, quando sabemos verdadeiramente qual a intenção do seu uso. Eu, particularmente ainda me embaraço ao pegar num computador, fax ou até mesmo vídeo, mas sei que tal embaraço ainda é resquício de uma colonização sofrida, ainda para mim um traço de assombro do índio diante do branco. Sei que esse assombro passará, e enquanto isso eu aprendo.

XamãÉ possível ser xamã e ter família? Fale sobre sua experiência.

Alba Maria – Aprendi na minha vida, que o impossível é aquilo que a mente não quer aceitar; posso dizer que não é fácil ser casada, Ter filhos a assumir o ser curador/xamã, mas creio que, quando vim para esse planeta assumi fazer algo inusitado, original, e isso tem um preço, não é? Falo que tem um preço, porque esse caminho exige muita renúncia, muita fé! Sou casada há 21 anos com o mesmo homem; temos nossos altos e baixos como qualquer casal, temos nossas brigas, acertamos nossas diferenças e procuramos, na medida do possível, exercitar esse aprendizado que escolhemos, o casamento, a parceria.

Xamã Quando e como você começou esse movimento interno? Você pode falar sobre isso?

Alba Maria – Na verdade não fui eu que comecei o movimento – o movimento é que começou em mim. Desde jovem, ainda menina, tinha visões e vivia num mundo povoado por princesas, fadas, duendes, castelos. A maioria dos conhecimentos que tenho provém de uma intuição profunda que toma conta de mim e me permite entrar em contato com ensinamentos sagrados. Além da intuição, o Grande Espírito dotou-me de um dom especial – a visão – que me auxilia em cada segundo da minha vida. Quando preciso, me centro e busco a visão, que vem e me auxilia. É algo muito belo e, talvez por isso mesmo, absolutamente inexplicável. Esse processo é interessante porque, logo depois da visão, eu normalmente pego um livro "por acaso" e a experiência, em termos gerais está lá pronta para o meu mental se acalmar. Hoje, graças a Deus, não mais preciso das confirmações externas: não tenho mais dúvidas.

Xamã Você tem alguma religião?

Alba Maria – Minha religião é Deus, que em alguns momentos chamo Grande Espírito. Não pertenço a nenhuma, absolutamente nenhuma instituição religiosa. Respeito a todas, mas respeito à minha opção interna, ao meu coração. Obedeço à minha voz interna. Sinto o amor de Deus em mim, em cada célula do meu corpo, sei que não mais me pertenço, que estou à disposição do Criador, e isto é a minha real ligação. É importante dizer que esta condição me faz amar cada ser humano, respeitando e aprendendo com cada um. Quando estou confusa, fico atenta aos sinais e procuro ampliar a minha escuta pedindo ajuda à natureza, às pessoas, ao universo.

Xamã Qual a diferença entre "eu sei" e "eu sinto" ?

Alba Maria – Quando dizemos "eu sei", normalmente é o nosso ego ou nossa parte egóica que fala. Quando dizemos "eu sinto", é algo que vem de dentro de cada um. Claro que não vale simplesmente mudar a linguagem e achar que já se fala com a voz do coração, porque está se afirmando o antigo de forma nova. Isto eu chamo de trapaça. Dizer "eu sinto" é um compromisso com seu ponto de honestidade, é se despir diante da vida, é falar do profundo da alma.

Xamã Fale sobre a caminhada que você realiza com seus grupos na Trilha dos Incas.

Alba Maria – Estas caminhadas fazem parte da Trilha mencionada acima. São viagens iniciáticas, onde cada um se prepara internamente para viver seus processos de busca e encontro. Digo sempre que há um pássaro sagrado aguardando cada ser no profundo abismo, no ponto onde já não existe mais nada: só ele e o vazio. É belo e avassalador ao mesmo tempo. Vou com meus grupos ou mesmo com um único buscador, não só a Machu-Picchu, mas a qualquer lugar do mundo que meu coração diga ser mais adequado para aquele ser que me procura.

Voltar para Indice de Entrevistas | Victor Estrada | Voltar para Xamanismo


ÁGUA TERRA FOGO AR ENTREVISTAS POEMAS