Revista Veja 4 de junho de 1997 - Entrevista: Robert Matthews

A teoria do azar

O físico inglês explica por que torradas caem
com a manteiga para baixo e tantas outras
coisas dão errado na vida das pessoas

Thomas Traumann
No café da manhã, a torrada escorrega do prato e cai no chão com o lado da manteiga virado para baixo. Quando se tenta escolher às pressas as meias no guarda-roupa, o par raramente combina. Na hora de fechar a porta, a chave correta é uma das últimas do chaveiro. Azar ou simples coincidência? Nem uma coisa nem outra, segundo o físico inglês Robert A.J. Matthews, 37 anos. Ele é um especialista nesses pequenos aborrecimentos diários que se tornaram conhecidos como produtos da lei de Murphy, aquela segundo a qual, se algo tem chance de dar errado, essa coisa, pode ter certeza, vai dar errado mesmo. Matthews transformou-se num cientista popular ao provar que a queda da torrada com a manteiga virada para o chão ou os pares de meia que não combinam são resultado de princípios elementares da matemática e da física. Formado pela Universidade de Oxford, já teve artigos publicados nas principais revistas científicas. Uma delas, Scientific American, estampou-o na capa em abril passado. Casado, pai de uma menina e dois meninos, Matthews mora com a família em Cumnor, pequena cidade do interior da Inglaterra, de onde deu a seguinte entrevista a VEJA:

Veja -- Qual a origem da lei de Murphy?

Matthews -- O autor dessa expressão, o capitão da Força Aérea americana Edward Murphy, foi a primeira vítima conhecida de sua própria lei. Em 1949, ele participava de testes sobre os efeitos da desaceleração rápida em piloto de aeronaves. Para medir isso, construiu um equipamento que registrava os batimentos cardíacos e a respiração dos pilotos. Certo dia, Murphy foi chamado para consertar uma pane no equipamento e descobriu que havia um erro de instalação em todos os eletrodos. Foi aí que ele formulou a teoria segundo a qual as pessoas sempre optam pelo jeito errado de construir determinado equipamento se houver duas maneiras diferentes de fazê-lo. Na prática, era um bom princípio de engenharia de segurança, mas acabou se popularizando com uma lei capaz de explicar os aborrecimentos do dia-a-dia. Como o próprio Murphy previra, havia duas formas de entender o seu princípio e as pessoas escolheram a errada.

Veja -- O senhor concorda que, quando alguma coisa tem chance de dar errado, dá mesmo?

Matthews -- Muitos dos aborrecimentos do cotidiano são bem mais freqüentes do que gostaríamos. Em geral, essas chateações não decorrem de uma grande conspiração contra o bem-estar da humanidade, mas de princípios científicos simples. O problema é que, muitas vezes, os próprios cientistas não enxergam isso e preferem acreditar que esses azares são produto da nossa memória seletiva, que nos faz lembrar mais facilmente dos episódios que dão errado do que dos que dão certo.

Veja -- Por que razão o senhor se interessou pela lei de Murphy?

Matthews -- Comecei a estudar o assunto há uns três anos, depois de ler o relato de um experimento de física numa revista científica. O artigo mostrava que, ao cair de uma mesa, um livro pousava muito mais vezes com a capa virada para o chão do que para cima. Achei o resultado intrigante porque, do ponto de vista da lei das probabilidades, as chances de a capa cair virada para o chão deveriam ser de apenas 50%, uma vez que o livro só tem duas faces. Quando repeti o teste em casa, percebi que o resultado da queda de um livro a partir da borda de uma mesa não tem nada a ver com possibilidades matemáticas, mas com a ação da gravidade e um pouco de fricção. Dessa forma, desvendei também um dos princípios mais célebres da lei de Murphy, o da torrada que sempre cai com a face amanteigada voltada para o chão.

Veja -- Como o senhor chegou a essa conclusão?

Matthews -- Meus testes mostraram que uma torrada, um livro ou qualquer objeto de formato semelhante têm uma tendência natural de cair de cabeça para baixo porque o torque gravitacional não é suficiente para que eles girem completamente sobre si mesmos antes de chegar ao chão. Isso quer dizer que, ao despencar de uma mesa, a torrada nunca terá tempo de dar uma volta completa de maneira a atingir o chão com a manteiga para cima. A distância entre a borda da mesa e o solo só permite que ela dê meia-volta. Isso não tem nada a ver com azar, com o fato de um lado da torrada estar coberto de manteiga ou com a ação de algum gnomo invisível. É pura ciência básica. Se a distância entre o topo da mesa e o chão fosse maior, o resultado seria diferente e é provável que o lado da manteiga estaria salvo.

Veja -- Nesse caso, a lei de Murphy só funciona em virtude da altura das mesas?

Matthews -- Exatamente. Mas isso leva a novas perguntas: por que as mesas não têm altura maior? Porque isso não seria conveniente nem confortável à anatomia humana. E por que os seres humanos não são maiores de modo a permitir que as mesas sejam mais altas? Porque qualquer ser bípede e de forma cilíndrica como os seres humanos não pode ter mais de 3 metros de altura. Pelas leis da física, acima desse porte ele correria risco de vida. Um homem ou uma mulher com 3 ou 4 metros de altura quebraria facilmente a cabeça numa queda. Para que uma torrada caísse com a face amanteigada para cima, seria necessário que a mesa tivesse acima de 2 metros de altura. Isso nunca será possível porque a adaptação dos seres humanos às leis da física impede que tenham estatura muito maior que a atual.

Veja -- O senhor quer dizer que as pessoas estão condenadas a sempre ver as torradas cair com a manteiga para baixo?

Matthews -- Uma solução seria passar a manteiga na face de baixo da torrada, mas isso iria complicar muito a vida das pessoas. Pode parecer estranho, mas se uma torrada estiver caindo da mesa o melhor a fazer é dar-lhe um tapa na horizontal. Isso vai aumentar a sua velocidade e impedi-la de virar. Não salva a torrada, mas evita ter de limpar a manteiga no chão.

Continua


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