Existem sites variados desde aqueles que gravam uma geladeira, um cinzeiro, ou um banheiro, até sites comerciais de sexo. O fenômeno faz parte da crescente publicização do espaço privado causado pelas novas tecnologias. Pequenas câmeras digitais, baratas e de fácil utilização, mostram, 24h por dia, a intimidade de alguns internautas. Em meio a debates calorosos sobre a invasão da vida privada, as web-cams pessoais visam, na contracorrente, revelar a vida íntima, o quotidiano de pessoas banais. E os internautas voyeurs gostam disso. O sucesso do programa No Limite da Rede Globo mostra que a fórmula tem apelo e pode dar certo.
No entanto, não há nenhum interesse maior em ver pessoas acordando, comendo, indo ao banheiro...Trata-se apenas de compartilhar, a distância e em tempo real, a vida como ela é, como diria Nelson Rodrigues; de fazer da vida ordinária uma obra de arte. Andy Warhol estava certo, todos querem os quinze minutos da fama prometida. A vida comum transforma-se em algo espetacular, compartilhada por milhões de olhos potenciais. E não se trata de nenhum evento emocionante. Não há histórias, aventuras, enredos complexos ou desfechos maravilhosos. Na realidade, nada acontece, a não ser a vida banal, elevada ao estado de arte pura. A vida privada, revelada pelas web-cams, é assim um espetáculo para olhos curiosos, e este espetáculo é a vida vivida na sua banalidade radical.
O ciberespaço faz com que qualquer um possa não só ser consumidor, mas também produtor de informação. O que pode parecer, para moralistas de plantão, um fenômeno minoritário e sem importância, reveste-se, na realidade, no sintoma da nossa época. Na publicização do espaço privado pelas novas tecnologias, a vida banal quer ser arte. Os adeptos das web-cams querem participar, com o que têm, do fluxo mundial de informação. Trata-se, é certo, de uma religiosidade social que me faz aderir ao outro. Participar, a partir desta visão espetacular, da vida banal de uma outra pessoa, me faz sentir re-ligado, próximo.
Com as web-cams, não estamos sozinhos quando olhos estranhos
nos espreitam. Compartilhando a banalidade podemos suportar melhor a existência.
E o mesmo acontece com aquele que é visto, já que ser visto
é também estar junto. Revelar a privacidade é um exercício
de permitir conexão. No fundo estamos sempre lutando contra a solidão,
contra o desencontro e o estranhamento.