VIAGEM A PARTIR DO MEU QUARTO
Por André Lemos

O ciberespaço é um espaço de fluxos. Ele nos coloca em meio a processos de mobilidade imóvel, ou imobilidade móvel, de contatos sem presença física, de deslocamentos imaginários. No século XVIII, o francês Xavier de Maistre escreve uma obra, Viagem ao redor do meu quarto (1794), ironizando os grandes aventureiros que, após suas conquistas, escreviam narrativas de suas viagens ao redor do mundo. De Maistre vai, pela sua imaginação, levar o leitor à uma viagem sem deslocamento físico através de descrições detalhadas dos objetos do seu quarto. Sem se mover, De Maistre induz ao leitor uma viagem imaginária.

Quase três séculos depois, cada um de nós, internautas, faz a mesma coisa: viagens imaginárias a partir de nossos quartos. O ciberespaço tem nos dado a possibilidade de sermos anjos, espectros vagando na velocidade da luz. Ele cria a figura do ciberflâneur.

A flânerie é uma prática de apropriação do espaço urbano que se caracteriza pelo andar despreocupado, aleatório e encantado do flâneur. Este tem por objeto de encantamento as pessoas, as ruas, as avenidas, os monumentos ou as fabricas. Cantado por Baudelaire no século XIX, o flâneur é a figura do vagabundo errante que se encanta com as florestas de símbolos urbanas. Hoje vagamos pouco pelas ruas desta forma. Perdendo a flânerie das cidades, encontramos a ciberflânerie do ciberespaço. Como De Maistre, mas agora com a Rede, viajamos sem sair dos nossos quartos.

De certa maneira andar, caminhar, errar pela cidade  o exercício de sair de si do flâneur  é similar a prática da navegação pelo ciberespaço. Os centros e pontos de partida são constantemente deslocados através da errância. Para vocês não pensarem que isso é delírio, segundo estatísticas, 87,7% dos internautas clicam aleatoriamente. A viagem a partir do quarto é imprevisível e, neste sentido, flanar numa cidade ou navegar por hipertextos são práticas muito similares. O flâneur é atraído por coisas da cidade, da mesma forma que o internauta o é pelos links. O flâneur se desloca a partir dos estímulos concretos da cidade enquanto que o ciberflâneur passeia por informações. Assim, clicar num link que aparece (naquele instante) interessante, ou virar a direita para ver a rua da minha infância são errâncias parecidas. O flâneur desloca seu corpo pelas malhas urbanas enquanto que o ciberflâneur desloca-se imaginariamente por páginas.

Enquanto De Maistre era um flâneur dentro do seu quarto, o ciberflâneur (que somos todos um pouco) viaja sem sair do seu quarto. Ele entra em contato com outros sem presença física, desloca-se entre páginas de informação sem sair do lugar, exerce, pela imaginação, o exercício da imobilidade móvel. Como disse alguém uma vez, coloco o walkman, ligo a parabólica, navego em sites e, do meu quarto, posso me sentir como se estivesse em Londres. Bom, é sempre melhor ir a Londres com esse fardo que é o corpo, mas para sedentários ou preguiçosos como De Maistre, o melhor é aproveitar sua imaginação e viajar pelo mar de dados a partir de seu próprio quarto.