A Parada da Paz em Sampa.
Por André Lemos
Domingo. O dia amanhece chuvoso e a guerra de nuvens no céu parece querer melar a guerra eletrônica pela paz nas ruas de Sampa. Não conseguiram: mais de 20 mil pessoas se reuniram para dançar embalados pela música tecno (e seus mais incompreensíveis estilos), no parque do Ibirabuera em São Paulo, reeditando eventos similares como a love parade em Berlim ou a gay pride em Paris. Trata-se, aqui, de um dos mais fortes movimentos sociais da cibercultura: o tecnotribalismo.

A rave da paz incarnou bem esse espírito, onde a jovem cultura urbana agregou-se para se divertir, sem preocupações políticas engajadas, a não ser o tema (muito genérico e sem foco) da PAZ. O objetivo parece ser mesmo esquecer a política corrupta, desengajada e anacrônica que nos assola. De forma sintomática, não havia partidos políticos e sim tribos as mais diversas que se misturavam nesta apoteose do hedonismo contemporâneo. Buscou-se a celebração, aqui e agora, dançando horas a fio em meio a clubbers, cibermanos, punks, gays ou skatistas. Paz das tribos e as tribos pela paz!

Embora pareça superficial, o fenômeno corresponde a uma das figuras chaves da sociedade contemporânea: o tribalismo. Nas diversas manifestações da cibercultura, a efervescência social cala os apocalípticos. Por isso eles atacam a suposta infantilidade, superficialidade ou alienação dos que se agregam em comunidades virtuais ou em festas tecno, as raves. Eles não compreendem a mudança estrutural deste fim de século: a tecnologia, que foi sempre associada a um instrumento de racionalização e de separação, transforma-se em ferramenta convivial e comunitária.

A tecnoparada da paz é um exemplo desta ênfase no presente, no instante vivido além de projeções futuristas ou morais, nas relações banais do quotidiano, nos momentos não institucionais, racionais ou finalistas da vida de todo dia. Estas práticas constituem o substrato de toda vida em sociedade, insistindo na dimensão do presente caótico e politeísta. Não se busca engajamentos políticos fixos ou pertencimentos à classes sociais definidas e estanques, mas aderir a sua tribo, estar-junto, dissolver-se no fluxo de beats.

As diversas manifestações da cibercultura mostram, como na parada do último domingo, a sinergia entre o social e o tecnológico. A cibercultura expande-se por uma astúcia dos usos, uma invenção do quotidiano. Os participantes da festa lutavam contra o isolamento, zappeando entre subjetividades prêt à porter, criando personas que agregam-se para se construírem com e pelo outro. A parada da paz prova que as novas tecnologias estão servindo como vetores de socialização e de difração do caráter comunitário tribal típico da sociabilidade contemporânea. Como me falou uma vez um zippie inglês, antes de lutar contra o sistema, nós estamos ignorando-o.

Para Mari, companheira nesse domingo entre as mais diversas tribos urbanas...