O imaginário da cibercultura é permeado por uma polarização que persegue a questão da técnica desde os tempos imemoriais: medo e fascinação. O que vemos hoje é o acirramento da querela entre o que Umberto Eco chamou de apocalípticos e integrados, radicalizando os debates entre aqueles que são taxados de neo-luddites (contra a euforia tecnológica) e os tecno-utópicos (promotores dessa mesma euforia). Com o objetivo de instaurar o consenso, um grupo de intelectuais americanos criou, em março de 1998, uma corrente de pensamento em relação à tecnologia batizada de "Tecnorealismo".
Nem luddites (pessimistas-apocalípticos) nem utópicos (otimistas-integrados), os tecnorealistas, pretendem ser a voz da razão, da objetividade e, mais do que isso, da neutralidade. Eles buscam plantar-se no centro do debate sobre os impactos sociais das novas tecnologias, impondo o consenso. Os neo-luddites insistem em regular e manter sob controle as novas tecnologias, alertando contra o potencial destruidor (da sociedade, do homem e da natureza). Já os tecno-utópicos mostram como as novas tecnologias criam possibilidades inusitadas para a humanidade, sendo uma espécie de panacéia contra os males da tecnocracia moderna.
O movimento tecnorealista surge nos EUA com o objetivo de encontrar o caminho alternativo tanto à tecno-utópicos como à neo-luddites. O movimento foi criado 12 de março de 1998 a partir de um encontro de 12 escritores e intelectuais no Bistrô Les Deux Gamins, no Greenwich Village em Nova York. Hoje o movimento tem um site na Internet (www.technorealism.org), uma lista de discussão (getreal-l) e mais de 1500 assinantes. A partir do manifesto, várias reações surgiram no ciberespaço como o site do tecnosentimentalismo (www.onlinepress.com), que faz uma paródia do movimento, ou o artigo tecnosurrealismo (www.disinfo.com/prop/diss/prop_diss_techsur.html).
Em meio à falência das ideologias será possível sustentar mais um "ismo"? Numa época de profundas transformações e incertezas, será possível atingir a "realidade" das coisas, ainda mais levando em conta as rápidas metamorfoses do fenômeno técnico? A questão aqui é epistemológica: será possível instaurar um novo projeto racionalista em meio a uma contemporaneidade em que o real há muito deixou de ser uma evidência em vários campos?
O tecnorealismo parece ser assim uma ideologia que desacredita seus opostos (rapidamente tachados de otimistas ou pessimistas) como excessivos, forcando-os a entrar na realidade das coisas. Os tecnorealistas querem dirigir os debates, aparar arestas e instaurar a hegemonia. Eles rejeitam o visionário e a desmesura, desabonando opiniões divergentes, neutralizando-as no suposto excesso retórico. A máxima parece ser: "minha argumentação é realista, logo ela é racional, neutra, objetiva, diferente dessas outras excessivamente utópicas ou pessimistas".
Contrapondo à euforia tecnorealista, R.U. Sirius propõe um tecnosurrealismo, já que realismo sem imaginação é mero reducionismo. E é preciso muito imaginação para viver num fluxo de informação caótico que supera em muito nossa capacidade de entendimento. Já que não é possível, em meio a essa explosão da informação, a existência de um consenso sobre qual o método real, objetivo, imparcial de conhecermos a realidade socio-técnica.
No fundo, o problema está naqueles que acreditam em tudo e naqueles
que não acreditam em nada. E você, de que lado está?