Qual é o verdadeiro valor da Internet em meio à crescente comercialização de suas estruturas? Antes de ser alvo de domínio de algum novo grande player mundial, a Internet é um fenômeno atual de socialidade, ativismo, personalização e emissão de informação livre e plural. O que vale aqui não é o valor de troca mas o que Michel Elie, do Observatoire des usages d'Internet (OUI), chama de valor de uso.
Se algo se vende hoje na grande rede é porque a vida social já estava ali. A conquista do oeste eletrônico não pode ser feita tendo por base o massacre dos usuários. A Internet pertence a seus usuários e, nesse sentido, os novos cow-boys não podem matar os indígenas internautas. Mais ainda, estes devem ser ouvidos em todas as decisões concernentes ao futuro do ciberespaço.
Essas questões são hoje primordiais para pensarmos o futuro da rede. Este está diretamente ligado às atividades sociais que foram imprescindíveis para a sua concretização. Se pensarmos à historia da rede, vemos que ela foi progressivamente populada, escapando a sua origem militar. Mais ainda, os programas e diversos instrumentos de comunicação foram agregados ao sistema através de um trabalho descoordenado e espontâneo. Temos hoje Web, chats, ICQ, muds, Napster e outras infinidades de instrumentos de comunicação à nossa disposição devido a apropriação social dessa tecnologia. Esta apropriação, e o efetivo uso desses instrumentos, é que deu sentido a rede.
Ora se os internautas criaram, popularam e deram sentido social, afetivo e político ao ciberespaço, parece evidente que esses são os verdadeiros donos da Internet. A busca atual do comércio eletrônico é de se apossar desse meio e dar-lhe um novo sentido. Mas o comércio não deve ser visto como necessariamente nefasto. Ele também faz parte da vida social desde o surgimento das primeiras cidades, criando pequenos mercados e estimulando as relações sociais. O que deve ser compreendido aqui é que o comércio deve reconhecer os primeiros habitantes do ciberespaço. O comércio eletrônico não está criando a rede, mas usando aquilo que o valor de uso social vem construindo há anos. O comércio faz parte da vida social, e deve ser estimulado, reconhecendo as particularidades e legitimidade de seus usuários.
Os players vivem, hoje, em meio a grandes especulações, na pressão em conseguir, no menor espaço de tempo possível, lucros financeiros. Você deve estar sentindo isso na pele: tecnologia wap que não oferece conteúdo que justifique o investimento, portais currais que simulam o conteúdo total, quando na verdade filtram informações como os antigos mass media, promessas de um mundo sem fio que ainda, concretamente, não se realizaram, desrespeito e desinformação em relação a segurança e a privacidade dos usuários...os exemplos são extensos. O ganho do utilizador, nesses sistemas, é praticamente nulo, ficando à mercê dos novos donos do poder. Ou assim pensam eles.
O que dá esperança é que os internautas estão vivos, para além do e-business: pululam páginas pessoais, Web cams, sites de protesto, agregações espontâneas em newsgroups, listas, fórum, chats, além de todo o desenvolvimento de softwares e sistemas abertos que colocam em cheque as grandes empresas monopolistas e a indústria do entretenimento. A rede é um bem social e, como tal, deve ser um direito universal.
A nova economia está, na maioria das vezes, preocupada mais em
captar o usuário do que em oferecer serviços, esquecendo
que esse organismo telemático só existirá enquanto
existir valor de uso e vida social. Os usuários são os donos
da rede já que a participação efetiva, dispondo de
serviços, softwares e agrupamentos sociais, transforma-os em mais
do que simples consumidores. Os internautas devem, necessariamente, serem
ouvidos em questões como acesso, cookies, spam, segurança,
softwares livres, exigindo o equacionamento desses problemas. Esse é
o maior desafio da cibercultura.