INTERFACE CEREBRAL

Por André Lemos

Imagine que um dia você poderá agir como Case, o personagem central de Neuromancer de William Gibson,  ou como o hacker Neo do filme Matrix, através de próteses que plugam diretamente o seu sistema nervoso aos computadores e ao ciberespaço. Loucura? Não. Em um futuro próximo, estaremos comandando nossos computadores com o pensamento.

O jornal francês Le Monde (http://interactif.lemonde.fr/) anunciou no seu site, no último dia 10, que uma interface cerebral franco-italiana poderá, em curto prazo, permitir a nós, pobres mortais, utilizar o pensamento para comandar uma máquina, caminhado para o que em outra coluna (Bye Bye Computer) eu chamava de interface zero. Não mais teclados, mouses ou joysticks, mas apenas o poder do pensamento. Não é ficção-científica como Neuromancer ou Matrix, mas a realidade, talvez mais incômoda que a ficção.

Definitivamente estamos caminhado para a abolição das interfaces físicas. O reconhecimento vocal já é uma realidade que permite a deficientes visuais comandarem seus computadores. Agora, um protótipo experimental europeu poderá, efetivamente, permitir à pessoas com deficiências físicas e, num futuro próximo, todo mundo, dirigir pelo pensamento, digamos uma cadeira de rodas ou mesmo surfar a Web ou escrever um e-mail.

Desenvolvido desde 1996 pelo programa Esprit (http://www.cordis.lu/esprit/src/intro.htm)  financiado pela Comissão Européia, mas com projetos similares em outros países da Europa e nos Estados Unidos, os pesquisadores conseguiram utilizar sinais do eletroencefalograma como fonte de informação. O sistema pode então reconhecer os sinais e gerar uma ação específica a partir destes, seja comandar uma cadeira de rodas ou mesmo deslocar o mouse pela tela do computador.

De forma individualizada, cada utilizador poderá escolher uma categoria de pensamento para gerar uma informação específica ao sistema. O dispositivo é relativamente simples. Vários captores colocados em um boné fixado na cabeça do utilizador grava os sinais emitidos pelo eletroencefalograma e os envia à um mecanismo eletrônico que analisa, filtra e amplifica os sinais. Estes são então convertidos ao formato numérico e transmitidos ao computador que, através de um programa específico, realiza a ação pretendida. A um pensamento específico corresponde, assim, uma ação correlata.

Claro que tudo isso não passa de um protótipo e problemas de tratamento em tempo real do pensamento e de confiabilidade da relação pensamento-ação ainda não estão totalmente equacionados. Os algoritmos de reconhecimento do pensamento estão baseados no conceito de redes neuronais, saído dos projetos em Inteligência Artificial. Os algoritmos são construídos tendo por analogia os neurônios e o funcionamento do cérebro humano. O protótipo atual, desenvolvido não laboratórios italianos, pode reconhecer 5 estados cerebrais diferentes com um taxa de eficiência de 70% e uma margem de erro de 5%. Ensaios com deficientes físicos estão sendo realizados atualmente para aperfeiçoar o sistema.

Assim, um dia, quem sabe, plugar diretamente no ciberespaço através de nosso sistema nervoso central, como no filme Matrix ou no romance de Gibson, será algo corriqueiro e não mais ficção. Quando esta época chegar, só precisaremos pensar para que nossas máquinas realizem as ações pretendidas. Mais uma vez a tecnologia de ponta se aproxima da magia: penso e algo se realiza. Definitivamente, estamos caminhado para a interface zero, total, para a simbiose radical do homem com a máquina, para a construção de uma sociedade cyborg.