Por André Lemos
Hoje, com a Internet, cursos a distância aparecem tentando resgatar o potencial educativo das novas tecnologias. Mas você pode estar dizendo: o que isso tem de novo? Aquele curso que fiz pelo Instituto Universal Brasileiro já não era isso? Sim, mas o que vou discutir hoje é o potencial das novas tecnologias do virtual dentro do processo educativo formal. Experiências nessa área surgem a cada dia, com menor ou maior êxito.
Sem complicar muito as coisas, toda experiência educativa é, por definição, compostas por combinações de processos de virtualização e atualização. Os primeiros visam questionar, enquanto os segundos buscam a resolução de problemas. Assim sendo, quando escrevo este artigo, virtualizo a temática educação e novas tecnologias. Atualizo a mesma quando escolho a abordagem e escrevo o texto. O processo é infindável, já que você, leitor, vai de novo virtualizar meu texto ao lê-lo (questionando-o). O processo de virtualização é próximo, assim, da leitura, assim como a atualização é similar ao processo de escrita.
O processo educativo é, independente de novas ou velhas tecnologias, virtualizante por natureza. Não é básico de toda experiência educacional a virtualização dos assuntos de uma determinada matéria? Não é objetivo de professores e alunos extrapolar os limites da certeza e ouvir outras vozes? Não devemos, enquanto professores, fazer com que os alunos problematizem assuntos e busquem, de modo permanente ou temporário, atualizar essas questões em respostas que comprovem o alcance de uma idéia?
Os conceitos hoje atribuídos às novas tecnologias podem ser aplicados ao processo educativo clássico, tradicionalmente exercido com livros, quadros negros, cuspe e giz. As novas tecnologias utilizam simulações, interatividade, não linearidade e tempo real. Ora, todas essas caraterística são possíveis de serem exercidas sem nenhuma mediação tecnológica. Vejamos. A interatividade é proporcionada pela relação entre alunos e professores, entre os diversos jogos possíveis e nos trabalhos em grupo. A simulação sempre foi usada, seja em laboratórios e atividades práticas, através de modelos que funcionam como se fossem a coisa real. A não linearidade pode ser exercitada pelos professores nas mais diversas tarefas, através de caminhos não óbvios ou preestabelecidos. O tempo real é a própria classe em atividade, onde as coisas acontecem ao vivo, entre todos os participantes. Nesse sentido, o que as novas tecnologias podem fazer é, não exatamente instaurar uma novidade radical, mas forçar a utilização dessas dinâmicas.
Hoje, nas salas de aula, os processos virtualizantes ficam dependentes da maior ou menor competência do professor. Com as tecnologias de comunicação, os professores e alunos ficam induzidos a utilizar o potencial hipertextual destas. Caso contrário, por que usá-lo? Como utilizar a Internet na educação sem exercitar a não linearidade, a interatividade, a simulação e o tempo real? Daí sua importância.
A educação é (ou deveria ser) virtualizante por natureza. Educar significa propor questões, problematizá-las e resolvê-las, mesmo que temporariamente. Esse processo pedagógico existe desde a maiêutica socrática, passando pela Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles, chegando hoje as nossas Universidades. Ou, ao menos, assim deveria ter sido. A crise do sistema educacional não pode ser solucionada apenas pela inclusão de novas tecnologias, mas por uma recondução do processo de ensino/aprendizagem (virtulização/atualização).
Talvez a crise do sistema educacional venha da ênfase dada às
atualizações e não aos processos virtualizantes. Hoje,
a lógica do passar de ano ou no vestibular obriga alunos a saberem
respostas prontas e não a questionar ou formular novas questões.
Com as novas tecnologias, inseridas com criatividade e inovação
pedagógica, talvez possamos chegar a um processo educacional mais
virtualizante, aberto e realmente inovador.