A invasão digital dos corpos cria Cyborgs. Estes não surgem
do nada. Nosso imaginário está, há muito tempo, sendo
alimentando (e aterrorizado) pela relação entre o artificial
e o corpo: Galetéia, as estátuas de Dédalo, o Golem,
os homúnculos de Paracelso, os autômatos, Frankenstein...
O cinema explorou também a imagem do Cyborg no popular Homem de
Seis Milhões de Dólares, nos replicantes de Blade Runner,
em Robocop, em Terminator e agora com Wolverine e Digimons. A revista Wired
deste mês trás na capa a imagem bizarra (quase monstruosa)
de um ser metade máquina, metade carne, um Cyborg. O corpo imaculado
torna-se lugar de experimentação.
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O Cyborg (neologismo entre cibernética e organismo) é
um ser híbrido, constituído por uma relação
íntima entre o orgânico e o artificial. Ele é um dos
paradigmas emergentes da cibercultura, embora o fato não seja novo.
Pense na atual onda de tatuagens e no piercing! Toda cultura surge de processos
de artificialização da natureza e o corpo é, desde
muito tempo, superfície de inscrição de processos
culturais. Hoje, a invasão do corpo e sua redefinição
através de máquinas de processamento de informação
parece tornar-se mais aguda. E isto não é ficção.
Exemplos concretos aparecem a cada dia: : próteses, nanomáquinas,
engenharia genética, implantes cerebrais e óticos, remédios
inteligentes...
Tanto na colonização dos objetos pelos chips, como na
colonização do corpo pelas micromáquinas e próteses
eletrônicas, o que está em jogo é a tradução
do mundo em informação. Embora seja herança de processos
ancestrais da simbiose homem-técnica, o Cyborg só pode existir
num mundo traduzido em bits. Não é à toa que o corpo
passa a ser esta nova fronteira. Assim, os circuitos eletrônicos
que podem ser implantados num nervo ótico, as performances do artista
Stelarc, o chip intracutâneo de um professor inglês, ou o projeto
Genoma Humano partem do mesmo paradigma: informação - mundo.
A imagem do Cyborg nos deixa assustados. Pensamos o corpo humano como
natural e a técnica como artificial. Mexer no humano é brincar
de Deus. No entanto, o homem (a cultura) forma-se no processo de simbiose
com a técnica. Podemos dizer que ele é artificial por natureza.
O corpo natural, sem influência de culturas e técnicas não
existe.
Estamos perseguindo a humanização, agenciando processos artificializantes. O cyborg participa da conectividade generalizada do ciberespaço (entidade híbrida). O corpo humano torna-se obsoleto (Stelarc), sendo hiperfuncionalizado por micromáquinas e próteses. E se você acha que isso tudo é delírio, não se esqueça o mesmo processo está em jogo quando usamos roupas, próteses dentárias, ortopédicas, cardíacas, lentes de contato, óculos, além da modificação do nosso programa imunológico com vacinas.
E o corpo ainda é pouco...
No fundo somos todos Cyborgs.
Mais...
Synthetic Pleasures (www.emedia.net/sp)
Steve Mann (wearcam.org)
EFF. (www.eff.org/pub/Net_Culture/Cyborg_anthropology/)
Cyborg Handbook (www.hotwired.com/body/96/02/cyborg.html)
Gênero (web.mit.edu/women-studies/www/sex.html)
Stelarc (www.ctheory.com/A29-Extended_body.htm)