VOCE É UM CYBORG!
Por André Lemos
Na última coluna discutíamos o desaparecimento dos computadores nos objetos. Agora vamos falar da colonização do corpo humano por próteses e nanomáquinas digitais, ou seja, o computador no corpo ou o corpo computador. Trata-se do mesmo princípio: o caminho em direção a uma interface zero. A miniaturização e a potência de processamento, como falávamos, devem pulverizar ainda mais o computador, não só em objetos informacionais mas também no corpo.

A invasão digital dos corpos cria Cyborgs. Estes não surgem do nada. Nosso imaginário está, há muito tempo, sendo alimentando (e aterrorizado) pela relação entre o artificial e o corpo: Galetéia, as estátuas de Dédalo, o Golem, os homúnculos de Paracelso, os autômatos, Frankenstein... O cinema explorou também a imagem do Cyborg no popular Homem de Seis Milhões de Dólares, nos replicantes de Blade Runner, em Robocop, em Terminator e agora com Wolverine e Digimons. A revista Wired deste mês trás na capa a imagem bizarra (quase monstruosa) de um ser metade máquina, metade carne, um Cyborg. O corpo imaculado torna-se lugar de experimentação.
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O Cyborg (neologismo entre cibernética e organismo) é um ser híbrido, constituído por uma relação íntima entre o orgânico e o artificial. Ele é um dos paradigmas emergentes da cibercultura, embora o fato não seja novo. Pense na atual onda de tatuagens e no piercing! Toda cultura surge de processos de artificialização da natureza e o corpo é, desde muito tempo, superfície de inscrição de processos culturais. Hoje, a invasão do corpo e sua redefinição através de máquinas de processamento de informação parece tornar-se mais aguda. E isto não é ficção. Exemplos concretos aparecem a cada dia: : próteses, nanomáquinas, engenharia genética, implantes cerebrais e óticos, remédios inteligentes...

Tanto na colonização dos objetos pelos chips, como na colonização do corpo pelas micromáquinas e próteses eletrônicas, o que está em jogo é a tradução do mundo em informação. Embora seja herança de processos ancestrais da simbiose homem-técnica, o Cyborg só pode existir num mundo traduzido em bits. Não é à toa que o corpo passa a ser esta nova fronteira. Assim, os circuitos eletrônicos que podem ser implantados num nervo ótico, as performances do artista Stelarc, o chip intracutâneo de um professor inglês, ou o projeto Genoma Humano partem do mesmo paradigma: informação - mundo.
A imagem do Cyborg nos deixa assustados. Pensamos o corpo humano como natural e a técnica como artificial. Mexer no humano é brincar de Deus. No entanto, o homem (a cultura) forma-se no processo de simbiose com a técnica. Podemos dizer que ele é artificial por natureza. O corpo natural, sem influência de culturas e técnicas não existe.

Estamos perseguindo a humanização, agenciando processos artificializantes. O cyborg participa da conectividade generalizada do ciberespaço (entidade híbrida). O corpo humano torna-se obsoleto (Stelarc), sendo hiperfuncionalizado por micromáquinas e próteses. E se você acha que isso tudo é delírio, não se esqueça o mesmo processo está em jogo quando usamos roupas, próteses dentárias, ortopédicas, cardíacas, lentes de contato, óculos, além da modificação do nosso programa imunológico com vacinas.

E o corpo ainda é pouco...
No fundo somos todos Cyborgs.

Mais...
Synthetic Pleasures (www.emedia.net/sp)
Steve Mann (wearcam.org)
EFF. (www.eff.org/pub/Net_Culture/Cyborg_anthropology/)
Cyborg Handbook (www.hotwired.com/body/96/02/cyborg.html)
Gênero (web.mit.edu/women-studies/www/sex.html)
Stelarc (www.ctheory.com/A29-Extended_body.htm)