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404nOtF0und ANO 5, VOL
1, N. 46· junho/2005
ISSN 1676-2916
Publicação do Ciberpesquisa - Centro de Estudos e Pesquisas
em Cibercultura
http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und
Editor: André Lemos
Editor Assistente: Cláudio
Manoel
PODCAST.
EMISSÃO SONORA, FUTURO DO RÁDIO E CIBERCULTURA
André Lemos[1]
Brecht, nas suas “teorias de la radio” de 1932, buscava transformar
o rádio em um instrumento de comunicação bi-direcional,
que fizesse com que cada ouvinte se tornasse também um produtor
de informação. Brecht queria uma “rebelión
por parte del oyente, su activación y su rehabilitación
como productor”. Para o dramaturgo alemão “la radiodifusión
debería en consecuencia apartarse de quienes la abastecen
y constituir a los oyentes en abastecedores”. Parece que seu sonho,
a sua utopia de reabilitação dos ouvintes como produtores
se realiza com o fenômeno mundial dos podcasts. Embora não
seja como o rádio que conhecemos hoje, com emissão centralizada
e difundindo massivamente programas em streaming, o podcasting usa o formato
e a metáfora para fazer com que qualquer um seja produtor de emissões
sonoras. Essa é mais uma expressão da cibercultura como
liberação do pólo da emissão.
Podcasting
O sistema de produção e difusão de conteúdos
sonoros conhecido como podcast surge no final de 2004. O nome é
um neologismo dos termos “iPod” (tocador de MP3 da Apple)
e “broadcasting” (transmissão, sistema de disseminação
de informação em larga escala). O termo não parece
ser muito bom, já que não é necessário um
iPod (qualquer tocador de MP3 serve) e não se trata de broadcast,
mas do que podemos chamar de webcast. A wikipédia define podcasting
como “a method of publishing sound files to the Internet, allowing
users to subscribe to a feed and receive new audio files automatically.
Podcasting is distinct from other types of audio content delivery because
it uses the RSS 2.0 file format. This technique has enabled many producers
to create self-published, syndicated radio shows.”[2]
O podcast é assim um sistema de produção e difusão
de arquivos sonoros que guardam similitudes com o formato dos programas
de rádio. O sistema funciona da seguinte forma: com um computador
doméstico equipado com um microfone e softwares de edição
de som, o usuário grava um programa (sobre o que quiser), salva
como arquivo de som (MP3, por exemplo) e depois torna-o disponível
em sites que são indexados em agregadores RSS (Really Simple Syndication)[3].
O usuário baixa o arquivo para o computador e daí para seu
tocador de MP3. O sistema, criado pelo ex-VJ da MTV americana Adam Curry,
pressupõe a cadeia completa de produção e de distribuição.
Podcasting é esse conjunto de tecnologias para produção
e distribuição de conteúdo sonoro. Como em outras
formas de produção da informação na cibercultura,
aparecem problemas de direito de autor (uso de músicas nos podcasts,
por exemplo). O interessante seria a emergência de programas com
licenças de uso do tipo “Creative Commons”[4] que garantisse
os direitos e as possibilidades de uso livre do conteúdo produzido.
Poucos são os podcasts que usam essa licença.
O fenômeno é recente, mas em crescimento vertiginoso. Em
menos de seis meses de existência, já podemos encontrar no
Google mais de 4.940.000 referências para a palavra podcasting.
Estima-se que há mais de 6 milhões de usuários do
sistema no mundo. No Brasil, os podcasts começam a surgir em 2005,
e hoje podemos contar algumas dezenas, estando, também, em crescimento
geométrico[5]. Pesquisa realizada pela Forrester estima que existirá,
até o fim do ano, mais de 300.000 podcasts e até 2009, 13
milhões[6].
Há vários tipos de podcast, na maioria temáticos:
tecnologia, arte, cultura, economia, notícia, literatura, música...
Um exemplo interessante é o “Sound Seeing” onde pessoas
fazem roteiros não oficiais de museus. Você pode baixar o
roteiro, colocar no seu tocador de MP3 e fazer a visita ouvindo guias
não oficiais[7]. Outra experiência interessante é
a da BBC que criou a “BBC Radio Podcasts” como mais de 20
programas disponíveis. Trata-se, nesse caso, de uma reação
e de um reconhecimento da importância das novas mídias por
um gigante do broadcasting[8]. Rádios comerciais já estão
buscando formas de fazer dinheiro com os podcast[9]. Religiosos também
utilizam a tecnologia com os “Godcasts”, podcasts de cunho
religioso utilizados por diversos cultos (católico, judeu, budista)
para manter contato e ampliar o número de fiéis[10]. O leque
de opções é crescente e bastante diversificado, tanto
em relação aos temas, quanto aos países ou línguas.
Liberação das emissões sonoras.
Parece que o que está em jogo com mais essa expressão da
cibercultura é a própria redefinição da indústria
cultural massiva, no caso, a reconfiguração do “rádio”.
A questão que sempre se coloca (com o open journalism, com os blogs,
com os softwares livres, etc.) é se estamos diante, ou não,
da criação de um novo gênero de produção,
de novos processos de comunicação e de publicação.
Será que podemos chamar de “rádio” arquivos
MP3, com formato de emissão radiofônica, gravados por qualquer
pessoa e disponibilizados na internet por meio de blogs e sistemas RSS
para transmiti-lo a um grupo de assinantes? O mesmo podemos argüir
em relação aos diários virtuais (diários?)
ou aos jornais on-line (jornal?). A analogia é com a mídia
massiva rádio, mas não seria apenas mais uma metáfora?
Matéria de capa da revista Wired de março de 2005 estampava
“the end of radio (as we know it)”. A revista referia-se aos
novos sistemas de emissão radiofônica, entre eles o podcast.
Vemos aqui um duplo erro, comum nas análises mais apressadas da
cibercultura: 1. o fim do meio analógico e massivo e, 2. sua substituição
por outro digital e personalizado. Primeiro, não é o fim
do rádio como meio de comunicação. O podcast só
vem a somar aos diversos formatos broadcasting. Segundo, tampouco é
o fim do rádio como nós conhecemos hoje, em seus formatos
AM e FM. O que estamos vendo é uma reconfiguração
midiática em que ambos os formatos permanecem e têm seus
nichos de usuários assegurados. É muito bom poder baixar
um programa à la carte, mas também é muito bom ouvir
um programa massivo no carro ou os comentários dos jogos de futebol
nos estádios em tempo real com um radinho de pilha. Usuários
com papéis diferenciados, funções diferenciadas e
mídias diferenciadas. Não se trata da substituição
de um formato por outro, já que os dois sistemas suprem necessidades
não concorrentes: o rádio massivo coloca o ouvinte em sintonia
com uma esfera coletiva; a emissão personalizada permite escolhas
de acordo com o gosto pessoal, além de um controle do espaço
e do tempo da audição.
Chegamos aqui ao cerne de uma das leis da cibercultura: a lógica
da reconfiguração. Não se trata, nos diversos fenômenos
contemporâneos, de extinção ou aniquilamento de formatos
e meios. A atual revolução das formas de emissão
sonora pela tecnologia digital e pelas redes telemáticas não
irá fazer desaparecer o rádio massivo (AM ou FM, mesmo que
a forma de emissão seja digital). Poderíamos até
pensar, em um futuro próximo, em um tocador conectado diretamente
`a internet. Nesse caso não estaríamos voltando ao streaming
das atuais rádios AM/FM? No caso da emissão de rádio
massiva e da emissão à la carte do podcast, mantêm-se
desejos de personalização e de customização
que os dois modelos oferecem de forma a enriquecer a paisagem comunicacional
contemporânea. A questão é complexa e exige um pensamento
que não funcione por exclusão, mas por adição.
A lógica da cibercultura não é o “ou”
mas o “e”.
Trata-se efetivamente de liberação do pólo da emissão.
Na atual cibercultura, blogs, fóruns temáticos, sistemas
peer to peer de troca de arquivos, software livres, podcast, softwares
sociais, como o Orkut, e tantas outras práticas contemporâneas,
atestam essa hipótese. O suposto excesso de informação
nada mais é do que a emergência de diversas vozes, exprimindo-se
sobre diversos assuntos, e sob diversos formatos, distribuídos
ao redor do mundo. Outra característica importante em questão
é o princípio de conexão, o compartilhamento de experiências,
arquivos, softwares em redes. Estamos vendo esse tripé em ação
com os podcasts: 1. liberação do pólo da emissão
(ouvinte produtor), 2. princípio de conexão: distribuição
por indexação de sites na rede (RSS) em conexão planetária
e, 3. reconfiguração dos formatos de emissão de conteúdos
sonoros (em dois pólos: o “faça você mesmo”
a sua rádio; e as rádios massivas criando programas em podcasting,
como a BBC).
Brecht, se estivesse vivo, talvez nos oferecesse um podcast seu, que provavelmente
daria, a cada usuário, a possibilidade de ouvir leituras de suas
peças ou de grandes dramaturgos. Ou, com certeza, ele estaria muito
feliz vendo sua utopia concretizada na atual difusão sonora dos
podcasts, onde os que eram apenas ouvintes transformam-se em produtores
de informação. A cibercultura está fazendo de cada
receptor (espectador, ouvinte, leitor) um produtor em potencial de informação,
tornando mais rico e complexo o ambiente comunicacional contemporâneo.
Referências.
BBC., Next iTunes to support podcasts, in http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/4575075.stm
Brecht, Bertold. Teorías de la Radio. Ed. Península, Barcelona,
1973., http://www.eptic.com.br/Brecht.pdf.
Bruno, Antony., Podcasting lures wary music biz., in Reuters., http://www.reuters.com/newsArticle.jhtml?type=internetNews&storyID=8761417
Dotinga, R., Radio Sets Eyes on Podcast Profit., in Wired., http://www.wired.com/news/digiwood/0,1412,67809,00.html?tw=wn_1culthead
Kennedy, Randy., With Irreverence and an iPod, Recreating the Museum Tour,
New York Times, http://www.nytimes.com/2005/05/28/arts/design/28podc.html?ex=1274932800&en=d1c6d7073dcc036&ei=5088&partner=rssnyt&emc=rss
(28/05/2005)
Kharif, Olga., Need a Lift? Try a Godcast, in http://www.businessweek.com/technology/content/may2005/tc20050525_0375_tc_211.htm
Koman, R. Why your podcast is probably already illegal., in SiliconValleyWatcher.com,
http://www.siliconvalleywatcher.com/mt/archives/2005/03/why_your_podcas.php
Lemos, A. Cunha, P. Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre, Sulina,
2003.
Wikipédia., in http://en.wikipedia.org/wiki/XML.
Link., Estadão., in www.link.estadao.com.br
Newitz, Annalee., Ipod Radio star., in Wired., The End of Radio (as we
know it)., march 2005, pp.111-113.
Rezende, Emerson., O que (já) vale a pena baixar e ouvir., in Informática,
Terra, http://informatica.terra.com.br/interna/0,,OI501127-EI553,00.html
Fletcher, E., Podcast Music Licensing Not as Financially Daunting as Bloggers
Surmise?, in Blawgzine., http://www.newcommblogzine.com/blog/_archives/2005/3/14/432177.html
NOTAS
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[1] Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
e Cultura Contemporânea da Facom/UFBA. alemos@ufba.br
[2] Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Podcasting
[3]. RSS utiliza a tecnologia XML. Sobre XML ver http://en.wikipedia.org/wiki/XML.
Alguns agregadores disponíveis: Doppler, iPodder, FeedDemon.
[4] Ver http://www.siliconvalleywatcher.com/mt/archives/2005/03/why_your_podcas.php.
Ver também http://www.newcommblogzine.com/blog/_archives/2005/3/14/432177.html.
Sobre Creative Commons, ver http://creativecommons.org/
[5].Sobre podcast no Brasil e no mundo ver: http://www.ipodder.org/, http://www.pewinternet.org/pdfs/PIP_podcasting.pdf,
http://news.softpedia.com/news/Does-Podcast-have-6-million-users-1004.shtml,
http://www.pewinternet.org/PPF/r/154/report_display.asp, http://informatica.terra.com.br/interna/0,,OI501127-EI553,00.html
, http://www.eupodo.com.br/category/eupodocast
[6] http://www.reuters.com/newsArticle.jhtml?type=internetNews&storyID=8761417.
[7].http://www.nytimes.com/2005/05/28/arts/design/28podc.html?ex=1274932800&en=db1c6d7073dcc036&ei=5088&partner=rssnyt&emc=rss
, Ver também http://mod.blogs.com/art_mobs/.
[8].Sobre a BBC veja http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/4575075.stm
[9] Ver http://www.wired.com/news/digiwood/0,1412,67809,00.html?tw=wn_1culthead
[10].http://www.businessweek.com/technology/content/may2005/tc20050525_0375_tc_211.htm
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