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404nOtF0und    ANO 1, VOL 1, N. 2 · março/2001

ISSN 1676-2916
Publicação do Ciberpesquisa - Centro de Estudos e Pesquisas em Cibercultura

http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und

Editor: André Lemos
Editor Assistente: Cláudio Manoel


Hipertexto e Complexidade
Por Marcelo Bolshaw

Semiótica de Rede

Há no novíssimo folclore de 'causos' e estórias duvidosas da internet, uma que define bem o espírito do Hipertexto. Conta-se que há no Massachusetts Institute of Technology - MIT um concurso anual entre os alunos-hackers em que o primeiro lugar é conferido a quem estabelecer as mudanças mais significativas em sistemas informacionais  e que o grande vencedor até os nossos dias foi alguém que colocou o quadro de avisos da escola em frente a sala do diretor. Com esse 'hipertexto', o aluno estabeleceu um maior nível de interatividade entre a direção e a escola, mais eficaz e democrático do que todos recursos tecnológicos utilizados (sites, chats, listas, etc) até o momento.

Assim, o hipertexto seria, independente de seu conteúdo temático ou suporte físico, uma forma de mudar a forma das pessoas interagirem, entre si e diante da autoridade. Ele 'cria' novos universos e 'enterra' velhos paradigmas.
Pelo menos, é nesse patamar que se coloca a discussão teórica contemporânea. Porém, de um ponto de vista geral, existem pelos menos três sentidos distintos para a noção de 'hipertexto':

1) O hipertexto é o texto em HTML (HyperText Markup Language) - ou a linguagem usada para criar documentos em Hipertexto para uso na World Wide Web. HTML parece muito com os códigos antigos, em que cercava-se um bloco de texto com códigos (tags) que indicavam como ele devia parecer. Ainda, no HTML pode-se especificar se um bloco de texto ou palavra serve como um link para outro arquivo na internet. Nessa definição, o hipertexto se subdividiria em três gerações de sites e homepages: os indiciais (listagens de links de arquivos e programas); os icônicos (ou aqueles que se organizam em torno de um conceito e que querem 'representar a realidade' de um
determinado púbico alvo); e, finalmente, os metafóricos (também chamados de 'artísticos' porque trabalham diretamente com o simbólico e utilizam recursos multimídia).

2) O hipertexto é um texto coletivo. Essa definição esteve em voga antes da internet e foi muito utilizada como ferramenta didática para elaboração de textos coletivos. O texto jornalístico, por exemplo, sobrepondo os discursos do pauteiro, do repórter e do editor, é, nessa definição, um hipertexto industrial. Como tanto pode ser um discurso escrito quanto audiovisual, costumo chamá-lo de Multitexto - em uma analogia aos termos multimídia e hipermídia.

3) O hipertexto é aquele em que o leitor interage com o discurso. Essa terceira definição para mim é a mais precisa porque abarca tanto o essencial das mudanças tecnológicas (a interatividade) como a tradição literária sob a ótica da leitura e do receptor (e não de sua produção autoral ou maquínica). De forma que o hipertexto, como estrutura aberta de múltiplo sentido, é aquele texto que beira a polissemia e permite o máximo de interpretações (2). Dessa lógica, Julio Cortazar e Ítalo Calvino são hiperescritores porque deixam aos seus leitores o direito de participação na estrutura narrativa.

A  professora Eni Orlandi (3), dentro de sua teoria geral de Análise do Discurso, propõe três categorias de discurso em relação à participação do referente entre os interlocutores de uma mensagem, deslocando a discussão do tradicional debate sobre forma/conteúdo/contexto para ressaltar o modo como os discursos são produzidos.

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Discurso Autoritário - O emissor impõe as suas necessidades de transmissão à realidade-referente da linguagem. O discurso tende à 'paráfrase', ou seja, à repetição da identidade do sentido e da ordem subjacente à sua transmissão. O resto é 'ruído'. Esta tendência à causalidade caracteriza a linguagem como redundância.

Discurso Lúdico - O receptor (ou a percepção) se apropria da realidade-referente, submetendo a transmissão a fatores aleatórios e/ou às necessidades da própria linguagem. O discurso aqui tende à mudança, à polissemia e à multiplicidade do sentido. Aqui surgem as diferenças e o novo.

Discurso Polêmico - O sentido é construído pela reversibilidade dialógica entre os pólos interlocutores da linguagem. O discurso, neste caso, é uma 'tensão' entre a paráfrase e a polissemia, entre a identidade e a multiplicidade. Esta tensão caracteriza, devido ao seu efeito estruturante do sentido, à reorganização da linguagem.
 

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Seguindo essa lógica, diríamos que o hipertexto se situa entre os discursos 'quase-não-autoritários', em que a ditadura do emissor na construção dos referentes é menos acentuada, e em que o lúdico e polêmico se misturam. Mas muitas outras abordagens trabalham diferenças semelhantes às da Análise do Discurso. A interpretação hermenêutica, por exemplo, chamará de 'Ciência' os discursos do EU na terceira pessoa; de 'Arte', o discursos do EU na primeira pessoa e de 'Política', os discursos do EU na segunda pessoa. Atualizando as idéias sobre Análise do Discurso da professora Orlandi pelas Tecnologias da Inteligência de Pierre Levy (4) poderíamos comparar o discurso autoritário ao advento da escrita e da unilateriedade da linguagem (e também do tempo histórico e do armazenamento contínuo de informações) - em que a produção do discurso segue sempre o modelo do 'um-muitos', como na Comunicação de Massa.

Podemos também comparar o lúdico aos discursos míticos e cíclicos, à simultaneidade sagrada da oralidade e de suas imagens arquetípicas.  O discurso aqui é produzido no modelo do 'um-a-um', da 'Dialógica Clínica' de Sócrates e Freud. Mantida a analogia, o polêmico representaria a terceira tecnologia da inteligência, o terceiro paradigma comunicacional que encontramos. É o discurso da 'Dialógica Ternária' de Cremilda Medina (5),  em que o público ou o grupo media a relação entre os diversos interlocutores reversíveis: o modelo 'muitos-muitos' - a que se associam tanto a noção de 'Cibercultura' quanto o conceito de 'Complexidade'. A diferença entre a dialógica clínica (a transferência analítica) e a dialógica comunicacional (o hipertexto) é em parte política, em parte
técnica. É política porque a polêmica subentende a polis como audiência e é técnica porque é amplificada através de instrumentos e artefatos que paradigmatizam a produção do discurso dentro de determinadas características.

Mas o lúdico e o polêmico sempre lembram as preferências etárias: as crianças brincam, os adultos brigam. Durante o império da escrita, o lúdico e o polêmico se confundiram e intercalaram em vários níveis. Ressalto dois: quando os adultos brincam e quando as crianças brigam. Adultos brincam: Os jogos olímpicos foram inventados pelos gregos para evitar a guerra entre as cidades-estados. Este dispositivo permanece até hoje: o lúdico é uma sublimação do polêmico. As crianças brigam: Quem é o dono do objeto-referente? É o conflito que na brincadeira que permite aos egos aprenderem o coletivo. Mas sem os discursos autoritários, tanto o polêmico descamba para o conflito quanto o lúdico grassa à loucura e à incomunicabilidade. É por isso que o código sempre institucionalizou a nível de sua transmissão.

Hoje, no entanto, chegamos ao Hipertexto, em que os receptores (a percepção) despertam da passividade para construção interativa de um referente. E não se trata apenas de fomentar polêmicas (como fazem, por força de seus ofícios, há um bom tempo, jornalistas e educadores). Com o advento do Hipertexto, a  generalização do modelo 'muitos-muitos' deve, em escala ampliada, produzir uma nova forma de democracia.

Porém não se deve esperar que o Hipertexto substitua a unidirecionalidade da mídia e das instituições sociais. Aliás, é preciso estabelecer os limites (mesmo que movediços) entre comunicação e organização. Uma rede hipertextual (ou grupo de afinidade), por exemplo, comporta diferentes ferramentas interativas (sala de chats, lista de discussão, páginas web com senha de ftp em comum) e pode não produzir um Hipertexto. Em contrapartida, como vimos, um indivíduo armado apenas de papel e caneta pode ser um hiperescritor, caso seu discurso estabeleça uma narrativa aberta aos seus leitores. A organização de uma rede é feita de procedimentos e pactos;
a comunicação através do Hipertexto é menos técnica/política que afetiva e depende mais do entrelaçamento amoroso das almas que da capacidade cognitiva das máquinas.

E mais: o Hipertexto nos remete à idéia de tapeçaria. Não apenas no sentido definido por Edgar Morin, isto é, de que o hipertexto é, ao mesmo tempo, mais e menos que a soma de todos seus textos/partes; mas, sobretudo, no sentido de uma trama tecida entre pessoas e coisas - através de links, referências e vínculos - em uma costura e descostura de bits e bytes que lembra o mito do Manto de Penélope. Nem perene como o suporte gráfico, nem instantâneo como o audiovisual; o Hipertexto é um constante reescrever o mesmo sentido de outras formas.
Temos uma única mensagem, mas temos que comunicá-la a cada pessoa e, a cada resposta, todas as tentativas anteriores teriam que ser reformuladas e se influenciariam reciprocamente, em um eterno retorno sempre diferente.

E para entendermos melhor esse processo de 'tecelagem sígnica', vamos abordar a questão do hipertexto por dois caminhos, ou melhor, por uma única via de mão-dupla: 'O Texto como um Sistema Complexo', em que vemos melhor a questão dos níveis de interpretação, e 'O Sistema Complexo como Texto', em que estudamos como os próprios Sistemas Não-lineares podem ser compreendidos como parte de um sistema de produção de sentido.

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NOTAS

(1) MORIN, E. "La complexité et l'entreprise"  in Introduction à une pensée complexe, ESF, Paris, 1990 pp 113-124. Tradução do professor José Maria Tavares de Andrade (UFBA),  1997.

(2) LEMOS, A. & alunos. Hipertexto <www.facom.ufba.br/hipertexto/> Salvador: Facom/UFBA, 1998.

(3) ORLANDI, E.  O Funcionamento da Linguagem, as Formas do Discurso. A Análise do Discurso Pedagógico. São Paulo: Ed Brasilense. 1980.

(4) MEDINA, CREMILDA.  Entrevista - O diálogo possível. São Paulo, Editora Ática, 1986.

(5) LEVY, P. Tecnologias da Inteligência - o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993

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